Série do Justiceiro aprofunda personagem e universo Marvel/Netlfix ganha fôlego

Em 2016, muitos fãs do universo Marvel nos cinemas e televisão foram à loucura ao ver a interpretação de Jon Bernthal para Frank Castle, o Justiceiro, na segunda temporada de Demolidor. Logo, a Netflix anunciou a produção de uma série solo do personagem, e a expectativa dos fãs foi levada aos céus, principalmente com a possibilidade de ver a produção mais pesada e pé no chão do universo Marvel. E é exatamente isso que recebemos em Marvel Justiceiro: uma série sobre violência urbana, dilemas morais e políticos, espionagem governamental, e corrupção militar.

Antes de tudo, esta primeira temporada dialoga fortemente com o cenário atual dos Estados Unidos (e do mundo), trazendo discussões sobre o porte de armas, o direito de defesa pessoal, e os limites do governo em intervir na vida das pessoas. O nono episódio, sem dúvida um dos melhores das séries da Marvel/Netflix, utiliza de flashbacks para construir um subtexto em torno da tal pós-verdade (moda nas redes sociais e ferramenta utilizada frequentemente pelo presidente Donald Trump) para guiar o encerramento de uma das várias subtramas desenvolvidas ao longo da temporada.

O personagem principal orienta os três arcos estabelecidos para a série. No primeiro, que contempla os quatro episódios iniciais, vemos como Frank agiu após os eventos da segunda temporada de Demolidor, usando seu alter ego por algum tempo e depois buscando se esconder da sociedade. Nesse arco, vemos o núcleo de confiança de Castle ser estabelecido, com atuações precisas de Ebon Moss-Bachrach (Micro) e Jason Moore (Curtis). Também somos apresentados aos outros núcleos da trama, com os espaços da Segurança Nacional (parte inicialmente fraca da estória, mas que gradativamente ganha peso dramático), do grupo de apoio a veteranos (de onde saiu uma surpreendente trama envolvendo o personagem Lewis Walcott), da família de Micro, e do suposto vilão, o agente Orange interpretado por Paul Schulze.

No primeiro arco, temos a oportunidade de ver o Justiceiro em alguns momentos, mas o foco está em aprofundar a personalidade de Frank Castle, mostrando-o como um pai de família, um ex-fuzileiro leal, um homem quebrado pelas atrocidades que viu e viveu. A série poderia muito bem desenhar a violência de Castle como algo simplório, se limitando a entreter os espectadores com sangue. Mas o roteiro vai muito além, indicando não somente que o personagem possui outras faces, como também sugerindo que o Justiceiro é o lado descontrolado, o lado a ser evitado.

Cabe ao segundo arco dar profundidade às relações estabelecidas por Frank, exigindo do bom ator Jon Bernthal desenvoltura na atuação, resultando em ótimos diálogos e, infelizmente, alguns pequenos furos do roteiro. A relação entre Frank e Micro é muito bem explorada, mas por vezes tira todo o senso de urgência e destinação da saga do Justiceiro. Além disso, a constante presença de Castle na casa dos Lieberman (visitando a esposa e os filhos de Micro) levanta o questionamento de como ele conseguiu manter o segredo quanto a sua identidade. E como diabos a Sarah não sabia que ele era o Justiceiro?!

Ainda assim, o arco caminha bem, mostrando a escalada da trama, afunilando as estórias secundárias na principal, levando ao nono episódio, em que Lewis ataca um evento no qual um político iria discursar contra o porte de armas. A construção da personalidade de Lewis como um soldado quebrado pelas incoerências das guerras e pelas contradições entre o patriotismo do exército americano e a realidade das próprias cidades do país pareceu sem sentido no começo, mas ganhou ótima forma ao chegar aos episódios 8 e 9. Além disso, o personagem tem função importante no roteiro, por ser o retrato do que as ações do Justiceiro podem inspirar, uma versão de legado muito mais sombria e perturbadora se comparado a outros personagens de quadrinhos.

O arco final, indo do episódio 10 ao 13, mostra que, mesmo sendo um personagem profundo e complexo, prevalece em Frank Castle o lado Justiceiro, com resoluções de problemas muito simples, à base de balas e muito, mas muito sangue mesmo. As cenas de luta são sujas, violentas, e movidas a muito sangramento. O Justiceiro não atira para imobilizar ou incapacitar, ele sai ao campo para matar seus oponentes, e isso cria um contraponto excelente com as outras séries da Marvel. Por sinal, a conexão com o universo é discreta. Karen Page possui destaque nos episódios, mas com seu núcleo próprio envolvendo o New York Bulletin (e seu chefe, Ellison) e o único detetive de Hells Kitchen, Brett Mahoney. Além disso, temos a aparição de Turk, um personagem constante no submundo de Nova Iorque.

O elemento negativo da série diz respeito aos vilões, que se aproximam mais dos seus congêneres ruins em Luke Cage e Punho de Ferro do que dos bons antagonistas de Demolidor e Jessica Jones. A construção de personagem feita por Ben Barnes para seu Billy Russo (o Retalho) não convence, tanto pelo roteiro raso quanto pela atuação canastrona que não causa conexão com o vilão. O único ponto que agrega algo bom a sua vilania é a participação no assassinato da família de Castle, de quem era bem próximo, de acordo com a série. William Rawlins, por sua vez, é ridículo. O bom ator Paul Schulze recebeu um personagem sem impacto e raso, o clássico vilão de filmes de espionagem, que está por trás de tudo, vê tudo, até que convenientemente perde todas as conexões e não consegue mais rastrear os passos de seus inimigos.

Apesar disso, a primeira temporada de Justiceiro entrega uma história muito boa, que continua bem a saga de Frank Castle, e explora as complexidades do personagem. Os ganchos deixados para uma eventual segunda temporada podem ser muito bons, se bem explorados pelos roteiristas.

No fim das contas, o universo Marvel/Netflix ganha novo fôlego, e prova que vale muito a pena explorar o lado mais urbano de suas estórias no serviço de streaming.

Marvel Justiceiro - 1ª temporada

Nota da Temporada - 8.5

8.5

Crítica, COM SPOILERS, da primeira temporada de Marvel Justiceiro, da Netflix.

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About Luiz Alves

Luiz Alves
Historiador, fã de histórias em quadrinhos e jogador de RPG de longa data. Tem interesse por séries de suspense, como Hannibal, The Killing, Luther etc., de fantasia, como Penny Dreadful; e de todas as séries baseadas em HQs.