A casa está assombrada – O Terror na TV – Parte 1

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“The only thing we have to fear is fear itself”

 

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Desenvolver gêneros na televisão é complicado. Criar comédias ou dramas, dois estilos estabelecidos, é uma coisa. Fazer terror, ficção-científica, suspense, ação, ou qualquer outro gênero que fuja da normalidade é uma tarefa delicada. Não é à toa que ainda são poucos os projetos que visam desenvolver novas formas de contar uma história. No gênero da ação, por exemplo, temos Banshee, do Cinemax, que é uma série realmente de gênero, com muita briga, tiroteio e perseguições. No lado dos musicais, tivemos, entre outras, Glee e Smash. A primeira não chegou ao fim da melhor maneira e a segunda teve apenas duas temporadas.

Já o terror, um dos gêneros mais complexos, até então não ganhara um bom representante. American Horror Story até tentou, mas não conheço ninguém que sinta medo assistindo algum episódio da série. E falo do medo real, do tipo que tira o sono, que lhe faz pensar que alguém lhe persegue durante a noite em uma rua escura e deserta. A recente Penny Dreadful, do Showtime, chega perto em alguns momentos, com cenas bem construídas e uma boa atmosfera. Nada, porém, que faça você querer dormir com uma luz ligada quando o sono chega. Caso ele chegue.

Um dos grandes problemas do terror é que ele precisa de uma construção cuidadosa, quase cirúrgica, para funcionar. E para isso, o ideal é que ele se desenvolva de uma só vez, sem intervalos. É por isso, talvez, que funcione bem no cinema, onde as histórias começam, crescem e terminam em um espaço de duas horas ininterruptas. Na televisão, principalmente no formato seriado, as coisas se tornam mais complexas. O primeiro empecilho é que é extremamente criar uma tensão crível em pouco mais de quarenta minutos. Pensemos: um filme leva quase uma hora pra apresentar a trama e seus personagens e então criar uma atmosfera que será desenvolvida até o final. Em séries, quando a tensão e a atmosfera estão criadas, o episódio acaba, e entre um capítulo e outro se encontram sete dias. É muito tempo para que o público permaneça conectado à história. O medo que a pessoa sentia foi embora. A pior coisa para a ficção é a realidade.

O espectador se envolve com a história e quando as coisas ficam realmente boas, o episódio chega ao fim, jogando-o de volta à realidade. A plateia então volta ao mundo real, realiza suas atividades, lembra-se de que os espíritos e monstros da ficção não existem e tudo está de volta ao normal. Com todo esse choque, a série precisa novamente reconquistar o público que está preso na realidade. Assim, a trama gasta mais um tempo para reconquistar a audiência e trazê-la para seu universo. É uma odisseia a cada novo capítulo.

enfieldhauntingThe Enfield Haunting

Um dos primeiros projetos a funcionar realmente bem no gênero é a recente The Enfield Haunting. Exibida pelo canal britânico Sky Living, a minissérie dividida em três partes traz Timothy Spall (Mr. Turner, série Harry Potter) e Matthew Macfadyen (Orgulho e Preconceito, Ripper Street) nos papéis principais. Cabe a dupla a investigação sobre uma possível assombração em uma casa na cidade de Enfield, no norte da Inglaterra. Tudo começa como a maioria das histórias: em uma casa alugada, uma família começa a presenciar acontecimentos estranhos como objetos que se movem e vozes ouvidas no meio da noite.

Maurice Grosse (Spall), que já tinha histórico relacionado a pesquisas envolvendo o sobrenatural, é chamado. No processo, Grosse encontra Guy Playfair (Macfadyen), um escritor e entusiasta das causas sobrenaturais. Playfair faz o conhecido papel de “representante do público”. É ele que nos liga à trama e nos representa com as mesmas questões que levantaríamos naquelas circunstâncias. É dele a tarefa, no início, de questionar e duvidar de tudo, criando uma balança entre a credulidade e o ceticismo.

Até aqui a estrutura é a mesma de tantos outros filmes do gênero. O que difere The Enfield Haunting são a coragem e a capacidade de estabelecer uma atmosfera crível e densa. A minissérie bebe nas melhores fontes recentes para buscar inspiração. É impossível não lembrar o clima e o visual do filme Invocação do Mal, que divide não só o estilo setentista, mas também uma tensão similar, a sensação de que a ameaça é real e pode acontecer com qualquer pessoa.

É claro que um projeto com três capítulos é mais fácil de desenvolver do que um com 13. Ainda assim, é admirável a capacidade da minissérie em pregar sustos legítimos no espectador, que fica tenso quase que todo o tempo. Os episódios sofrem do “mal da realidade; não é à toa que o terceiro episódio não tem a mesma intensidade que o segundo e este não tem a mesma intensidade do primeiro. Os dias entre uma parte e outra acabam tirando um pouco do brilho. De qualquer forma, a minissérie se sai bem ao tentar fugir do problema, conseguindo manter uma boa tensão e uma atmosfera assustadora durante as três semanas que foi ao ar. Além disso, Enfield Haunting é a primeira incursão do terror na televisão recente a me pregar sustos legítimos. Pode não lhe tirar o sono, mas qualquer barulho estranho durante a noite lhe fará lembrar os acontecimentos retratados aqui.

 

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“Há uma diferença entre horror e terror. Horror é o que não é natural; aranhas do tamanho de ursos, mortos que acordam e andam como zumbis, etc. Terror é quando você percebe que tudo que você tem foi roubado e substituído por outra coisa. É quando as luzes se apagam e você sente que algo ou alguém está atrás de você. Você pode ouvir. Você pode senti-lo respirar contra o seu ouvido. Quando você se vira, não há nada…”

-Stephen King

 

The Enfield Haunting talvez se saia tão bem por ser baseada em fatos. Fatos, aliás, amplamente divulgados pela mídia da época. Guy Playfair, personagem da minissérie, existe e foi o escritor do livro que levou detalhes dos acontecimentos ao mundo. É este livro, chamado The House is Haunting, que inspirou a produção da minissérie. A obra é um relato detalhado dos dias que Playfair passou junto à família, presenciando as mais variadas manifestações sobrenaturais. Vídeos no Youtube trazem áudios de entrevistas feitas na época; neles, é possível ouvir os investigadores e a jovem Janet, supostamente possuída por um poltergeist.

O livro ficou famoso no mundo todo e até hoje suscita polêmica. Foi comprovado que algumas evidências foram alteradas e são falsas. Outras provas, porém, seguem sem explicação. Céticos tratam de desmistificar todo o acontecimento, dizendo que não passa de publicidade. Janet, na época com 11 anos, passou a vida inteira afirmando que tudo foi real e que um poltergeist realmente assombrou a casa.

Hoje, a residência segue de pé e é habitada por outra família. Dos anos 70 até agora, várias pessoas passaram pelo lugar. Algumas afirmam que uma presença ainda pode ser sentida no ambiente; outros dizem que não há nada. Uma coisa, porém, é fato: nenhuma família passou muito tempo no lugar. De todo modo, é impossível afirmar se os áudios ou fotos do ocorrido são autênticos ou não. The Enfield Haunting intriga e assusta justamente por se basear em uma história real e tão controversa. Se tudo foi verdade ou mentira, ninguém sabe. Isso não quer dizer nada, já que você também não sabe se está realmente sozinho no quarto, casa, carro, ou neste exato momento.

“Brazil” Haunting

Guy Playfair passou vários anos no Brasil como jornalista correspondente de famosos jornais britânicos e americanos. Caso você tenha assistido a minissérie ou pretende assisti-la, verá que Playfair fala em certo momento sobre sua estadia em nosso país e suas assustadoras experiências. Segundo ele, o Brasil está repleto de espíritos, poltergeists e esse tipo de coisa simpática. The Flying Cow: Exploring the Psychic World of Brazil é seu primeiro livro e traz diversos relatos sobre o lado sobrenatural do Brasil. Playfair voltou ao país mais vezes e seguiu escrevendo sobre o assunto. Sua paixão pelo Brasil e seu lado obscuro podem ser vistos em seu último livro: Chico Xavier – Médium do Século.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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