A casa está assombrada – O Terror na TV – Parte 2

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Na primeira parte deste especial, citei um conceito criado por Stephen King para separar os tipos de “terror”. Segundo o autor existem três, sendo dois deles os principais. Um é o horror, aquele relacionado a coisas absurdas, que por mais que temamos, sabemos, no fundo de nosso consciente, que elas não existem. São aranhas gigantes, monstros híbridos, mutantes, vampiros, lobisomens, etc. Já o terror é o que realmente nos pega desprevenidos e nos assustam. É aquela sensação de que estamos sendo seguidos, de que alguém nos espia atrás das cortinas, de que não estamos sozinhos na sala. É o mais primitivo, o mais íntimos. Podemos encaixar aqui coisas que não temos certeza se existem ou não: enquanto você sabe que nenhum homem irá se transformar em lobo nas noites de lua cheia, você não tem tanta certeza se o espírito de um parente distante não está perto de você, querendo aparecer numa foto, talvez.

Na televisão é fácil saber o tipo mais utilizado. Sim, o horror. Como comentado na primeira parte, desenvolver um programa de terror na TV é tarefa complicada. Mexer com os sentimentos do público é algo delicado. Fazer rir e atemorizar talvez sejam duas das coisas mais difíceis de fazer em uma obra de arte. Talvez seja por isso que os programas prefiram investir no horror e não no terror. Trazer absurdos e sustos esporádicos é mais cômodo e talvez renda um retorno melhor do que elaborar uma densa camada de tensão e medo.

Pois vejamos: pense rápido em cinco séries de horror (não esqueça a diferença entre os tipos!). Pensou? Não é difícil. Neste setor temos American Horror Story, Penny Dreadful, The Walking Dead, Hemlock Grove, Supernatural, The Strain, Dead Set, entre outras. E de terror? Consegue lembrar alguma? São mínimas. Talvez umas três ou quatro minisséries britânicas e pouco conhecidas. Perceba que a maioria das séries que citei como pertencendo em gênero horror tem como objetivo apenas causa estranheza, nojo, medo controlado. Nenhuma delas quer realmente te tirar o sono, apenas causar repulsa.

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AHS, por exemplo, é apenas estranha e causa repulsa de vez em quando. Quem diz que sente medo assistindo a série ou está mentindo ou não conhece algo realmente assustador. O mesmo acontece com Hemlock Grove e The Walking Dead, sendo que esta se dedica mais ao suspense e à ação do que ao horror em si. Alguém lembra de Carnivàle, The Fades, Fear Itself, Night Visions? A primeira foi cancelada depois de duas temporadas, a segunda depois de apenas um ano e as duas últimas são antologias com cada episódio tendo uma história diferente. Nota-se, logo, que séries que tentam investir no terror acabam durando pouco ou aderindo a formatos diferenciados, como antologias. A clássica The Twilight Zone comprova a ideia depois de amedrontar o público por vários anos: se quiser contar uma história assustadora, crie uma antologia em que histórias comecem e terminem em apenas uma temporada ou até mesmo em apenas um episódio.

 

Terror barato

O termo penny dreadful faz referência a histórias de terror sensacionalistas e baratas (penny = centavo) que eram comercializadas na Inglaterra vitoriana. Eram histórias absurdas, envolvendo monstros, criaturas nascidas no fundo das mentes mais sujas da época. Anos depois o termo intitula uma série do canal Showtime. Criada por John Logan, Penny Dreadful é uma mistura consistente de diversos clássicos literários. De Dorian Gray ao monstro de Frankenstein, passando por vampiros, espíritos, lobisomens e bruxas, a série está na linha tênue que separa os dois tipos horror e terror.

Enquanto tenta chocar com matanças e absurdos, Penny Dreadful tenta, também, ir pouco mais fundo na psique da audiência investindo em tramas mais delicadas e realmente assustadoras. Não chega a tirar o sono, mas é interessante acompanhar como personagens clássicos vão se misturando à mitologia original da série. O monstro criado por Victor Frankenstein em muito lembra aquele visto no livro e nos filmes: é um ser sobrenatural que deseja ser mais humano, e não apenas um pedaço de carne. Estão aqui, portanto, os subtextos complexos do livro de Mary Shelley: quem afinal é o monstro? A criatura, que não pediu para vir ao mundo como um morto-vivo, ou seu criador, que quebrou as barreiras do aceitável apenas para fingir ser Deus. A série ainda encontra espaço para tratar outro assunto clássico quando falamos de Frankenstein: sua noiva. A criatura quer uma companhia e obriga seu criador a conceder-lhe uma.

Dorian Gray, saído do clássico de Oscar Wilde, também traz alguns elementos de seu material de origem. No romance, Gray é um homem que faz um pacto para viver eternamente jovem enquanto um retrato seu (uma bela pintura a óleo) envelhece. Tendo a juventude ao seu lado, Dorian se joga na amoralidade e marginalidade da Inglaterra vitoriana. Enquanto seu corpo permanece o mesmo, o homem no retrato envelhece e adquire todas as marcas dos pecados cometidos por Dorian. Na época de lançamento (aproximadamente 1890), o livro recebeu duras críticas da ala conservadora e rica da Inglaterra. As depravações do período, afinal, estavam nas páginas escritas por Wilde. Para os críticos, a amoralidade explicitada no livro deveria ser escondida longe dos olhos do público.

 

Mix indica

Quer uma dose de horror/terror ou qualquer coisa relacionada? Aqui vão algumas dicas de séries, minisséries e/ou especiais não tão conhecidos pelo grande público e que merecem uma chance (nem que seja o primeiro episódio). Para deixar tudo bem claro, vão duas cotações de 1 a 10: uma diz respeito à qualidade em geral do programa e outra ao nível de horror/terror, ou seja, se o negócio assusta ou não.

Fear Itself – Antologia do Medo:

Nota: 8,0

Nível de horror/terror: 7,0

Antologia lançada em 2008. Com treze episódios, cada um com uma história diferente, com diretores e elenco diferentes, Fear Itself não é um primor, mas é um bom passatempo. Por vezes se dedicando ao terror psicológico e por outras ao horror do tipo B, cheio de tripas e sangue falso, a antologia tem de tudo e se não agradar em um momento, pode agradar em outro.

The-Fades-promo-09-PaulThe Fades

Nota: 7,5

Nível de horror/terror: 6,5

The Fades foi elogiada pela crítica e conquistou alguns fãs fiéis, mas não foi suficiente para permanecer no ar. A história acompanha Paul, um jovem que começa a ver espíritos (conhecidos como the Fades) e ter pesadelos com o fim do mundo. Não demora a uma das entidades descobrir uma passagem para o mundo dos vivos e complicar ainda mais a vida do pobre Paul. Não chega a assustar realmente, mas tem um clima bacana.

Inside Nº9

Nota: 7,5

Nível de horror/terror: 6

Inside Nº 9 não chega a ser uma série de terror, mas mistura humor negro com algumas tramas tenebrosas. Trata-se de uma antologia britânica, onde cada episódio tem uma trama diferente. Vale pelo estilo, pelos roteiros muito bem escritos e pela originalidade de cada capítulo. Em um acompanhamos vários personagens conversando dentro de um armário, em outro, vemos ladrões tentando roubar uma mansão (este episódio não tem uma linha de diálogo), e assim os episódios trazem situações cada vez mais absurdas. Tudo envolvendo o número 9, claro.

Dead Set

Nota: 8,5

Nível de horror/terror: 5,0

Dead Set envolve comédia e horror trash quase na mesma medida. Trata-se de uma minissérie inglesa com cinco capítulos que acompanha participantes de um reality show que, isolados do mundo, não sabem que o mundo foi infectado com um vírus que transforma seres humanos em zumbis. Não demora, porém, para o primeiro zumbi aparecer e os personagens terem de se salvar e tentar escapar da casa. É uma ótima crítica à “cultura” dos reality shows e ao próprio gênero saturado dos zumbis.

Invasion

Nota: 8,5

Nível de horror/terror: 5,04a89135c741cc

Invasion está longe de ser assustadora, mas tem uma ambientação bem trabalhada e uma trama envolvente. Lançada em 2005, a série não foi fiasco entre o público, mas também não agradou o canal que cancelou o programa depois da primeira temporada, deixando várias perguntas sem respostas. A história segue alguns moradores da pequena cidade de Homestead, que começa a presenciar estranhos acontecimentos depois de um furacão quase devastar a região por completo. É uma série de suposições, de tratamento de suspense e tensão e não de sustos ou revelações explícitas.

O Reino

Nota: 7,5

Nível de horror/terror: 8,5

Lançada em 1994, esta bizarrice criada por ninguém menos que Lars Von Trier pode não agradar a todos, mas tem seus méritos. Trata-se de um hospital construído sobre uma área cheia de mistérios, lendas e mortes. É claro que o lugar é amaldiçoado e os fantasmas não demoram em assombrar médicos e pacientes. O visual causa estranheza e o roteiro às vezes é confuso, mas é uma obra tão bizarra, tão diferente e profunda que acaba indo no íntimo do espectador para assustar. A série tem duas temporadas e infelizmente acabou sem um final definido depois que dois dos atores principais faleceram, impedindo a continuação da trama.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

6 comments

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  1. Avatar
    Romildo Medeiros 5 julho, 2015 at 23:12 Responder

    Apesar de tudo, pra mim, The fades é a melhor dessa lista ai. Se bem que nunca vi Fear Itself.

    Realmente são poucas são as produções de terror para TV, mas uma das que todos os fãs do gênero precisam assistir é The Secret of Crickley Hall.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 9 julho, 2015 at 19:56 Responder

      Fear Itself é uma antologia, então tem episódios bons e ruins – alguns muito ruins -, mas é bacana.Tem uma pegada descompromissada que falta para algumas séries do gênero.

      Ainda não assisti essa. Vou procurar. Valeu Romildo!

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