American Gods – 1×02 – The Secret of Spoons

Imagem: Starz/Divulgação

“Maldita era da informação!”, ouvimos Wednesday praguejar logo após atirar alguns aparelhos eletrônicos pela janela do carro em movimento. O segundo episódio do mais recente show da Starz, American Gods, começa a abordar mais claramente o confronto entre o tradicional e o moderno, deuses antigos e novos, figuras a cair no esquecimento enquanto a adoração à tecnologia se populariza.

A confusa cena da limousine do episódio anterior, “The Bone Orchard”, é agora melhor compreendida com este debate sendo colocado à mesa; o Technical Boy representa a nova geração de deuses e tudo o que os antigos parecem odiar. Wednesday não quer saber de telefones celulares, prefere os telegramas; Czernobog – um novo deus apresentado nesta semana – sente falta da maneira rudimentar de se matar animais. “The Secret of Spoons” cuida de expor essa discussão, que deverá tomar as rédeas da temporada a partir daqui, em diálogos e cenas bem construídas, enquanto desenvolve a relação de Shadow e seu novo chefe em sua jornada misteriosa.

Ian McShane mais uma vez brilha e rouba toda a atenção para si durante a exibição, com um charme – como o próprio personagem gosta de chamar – inigualável e um tom de falsa ingenuidade que tenta esconder os reais objetivos de Wednesday e persuadir aos demais. Já é possível notar que a história deve girar em torno destes objetivos, tomando certos aspectos de um road movie ao acompanhar a dupla por diversos lugares enquanto ele tenta alcançá-los. É por isso que a escolha de um ator ao nível de McShane – que entrega um trabalho magnífico – era primordial.

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Um plot que parece ter chegado ao fim neste episódio, ou ao menos perto disso, foi a morte da esposa de Shadow e suas consequências imediatas. Diferente do que aconteceu em “The Bone Orchard”, dessa vez o sofrimento do protagonista pareceu crível, com o uso de recursos delicados de passagem do tempo ressaltando a discrepância entre a expectativa de Shadow ao entrar na casa onde morava e o que realmente encontrou lá. É notável que a atuação de Ricky Whittle deixa a desejar em alguns momentos, principalmente quando as cenas exigem humor, mas a falta de personalidade do personagem – característica que, inclusive, é salientada por Wednesday em uma das cenas – atrapalha ainda mais o público a entender suas ações e motivações.

Enquanto os diálogos entre a dupla principal continuam sendo o ponto forte da atração e o embate entre velhos e novos deuses começa a tomar fôlego, novos personagens são introduzidos à trama. Czernobog e as irmãs Zorya são apresentados como velhos conhecidos de Wednesday e conhecedores de suas artimanhas, rendendo bons momentos. Contudo, ocupam um bom tempo da duração do episódio com uma partida de damas interminável que poderia facilmente ser reduzida ou substituída, o que deve desagradar ao público mais impaciente e à procura da pancadaria sanguinolenta do episódio anterior. Mr. Nancy, ou Ananse, é um deus de raízes africanas cuja vinda à América é exibida nos primeiros minutos de exibição, entregando um discurso engajado sobre os séculos de dominação dos homens brancos sobre os negros naquele lugar e as consequências disso nos tempos atuais.

“The Secret of Spoons” difere bastante de seu antecessor. Buscando entregar mais explicações – ínfimas, porém em maior quantidade que este – sobre a narrativa e fortalecer o elo entre Wednesday e Shadow, os produtores entregaram ao público um episódio mais controlado e menos feroz, o que era de se esperar após tanta informação ter sido jogada na tela na semana passada. American Gods mostra-se como um pretensioso projeto da Starz que deve chamar ainda muita atenção.

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