A ascensão de Shonda Rhimes até a Netflix: Escritora, assassina e gênio…

Imagem: Dove/ABC/Divulgação

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Nesta semana, uma autora esteve bastante em evidência no mundo das séries: Shonda Rhimes. A mais nova contratada da Netflix deu o que falar ao largar um contrato de longa duração com a ABC, afim de migrar para a plataforma de Streaming. Porém, o sucesso que a levou para Netflix é fruto de uma extensa caminhada que vale a pena ser discutida.

A mente por trás de séries de sucesso como Grey’s Anatomy e Scandal ficou conhecida por escrever tramas envolventes, com personagens cativantes e reviravoltas de tirarem o fôlego. Claro, não podemos esquecer da sua fama de assassina, uma vez que ela adora matar os personagens de suas séries. Mas, convenhamos, sua genialidade nos textos e produções dos programas tornaram o seu nome um sinônimo de sucesso.

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Quando Grey’s Anatomy estreou lá em 2005, a série não pretendia ia mudar o cenário da televisão. Era a primeira série de TV escrita e criada por Rhimes. Naquele momento, E.R. – Plantão Médico ainda era exibida e Grey’s Anatomy foi taxada como uma “cópia de curta duração”, ou “um novelão para mulheres”. Mas poucos imaginariam que logo na segunda temporada, Grey’s Anatomy se tornaria um fenômeno. Dali, foi um passo para exibição no Super-Bowl, indicações e conquistas em premiações como Golden Globes e Emmy. Dentro de dois anos, Rhimes alavancaria o seu sucesso com um spin-off de Grey’s, a série Private Practice que focava na história Dra. Addison Montgomery. Já em 2012, ela mudou o cenário das séries políticas e se aventurou em Scandal, que logo se tornou um fenômeno também. Neste momento, sua produtora Shondaland já estava mais que consolidada, e séries como How To Get Away With Murder e The Catch passaram a incluir a linha de shows do TGIT (bloco de programação de quinta feira dedicada às produções de Rhimes).

Em menos de uma década, Shonda Rhimes tornou-se uma das melhores showruners da televisão (um trabalho da indústria televisa que indica o maior poder no processo criativo de uma série), construindo um império sobre dramas de relacionamentos sexys e perigosos, cada vez mais absurdos. E embora ela mantenha no ar séries populares, no entanto, o texto de Rhimes realmente mascara o rico potencial de seu ponto de vista. Sim, ela mata muitos personagens de forma espetacular, e seus dramas tendem a pegar fogo rapidamente, dentro de intensas reviravoltas. Mas eles também esticam o limite de suas histórias entre caráter, diversidade e fronteiras sociais em uma parcela muito além das exploradas nas séries de televisão. Se um pouco do sensacionalismo das séries de Rhimes fosse trocado por uma narrativa um pouco mais séria, o seu imério poderia se transformar facilmente em um dos mais impressionantes na televisão. Mas talvez, seja esse o motivo que tenha levado Shonda Rhimes a trocar a ABC pela Netflix. Talvez, a liberdade de expressão e a necessidade de falar para um público mais adulto e abrangente, dê asas para a imaginação da autora, que está a um passo de elevar a história das séries de TV para outro nível.

Mas mesmo com sensacionalismo impregnado em seus textos, temos de reconhecer que Rhimes soube bem consolidar sua fama. Grey’s Anatomy, por exemplo, começou como uma história muito humana de cirurgiões novatos, liderada por Meredith Grey, que se esforçam para se tornar profissionais e adultos – e enfrentam as pressões de cuidar dos pais, de relacionamentos maduros que acompanham as expectativas, de ter uma casa, dinheiro e responsabilidades, entre outras coisas. Mas como Meredith lidava com os muitos problemas de sua vida, a maré se transformou, e uma série silenciosa – que não precisava de nada mais do que um simples surto para terminar sua primeira temporada – tornou-se uma série em que sua heroína, literalmente, manteve sua vida com as mãos agarrando um pedaço de munição embutida no corpo de um homem.

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Grey’s Anatomy entrou para a história da TV com reviravoltas e indicações à prêmios consagrados. Imagem: ABC

Em um mundo em que cada evento de televisão deve ser superado, Grey’s Anatomy rapidamente se transformou em um investimento de romance permeado com uma angústia mortal, cada vez maior, quando os cirurgiões enfrentaram múltiplos acidentes de ônibus e aviões, homens armados, explosões, eletrocussões e muito mais. Mas foi exatamente isso que começou a chamar a atenção do público e Rhimes soube tirar dessa atenção um proveito para as oportunidades que a ABC lhe proporcionou. Por exemplo, ter em um elenco principal com atores de várias etnias (só na primeira temporada de Grey’s Anatomy, tínhamos três negros e uma asiática), que tinham funções importantes nas tramas. Rhimes foi além, quando escalou Kerry Washington para ser protagonista de sua Scandal. Mulher, negra, sexy, Olívia Pope era uma mulher destemida, que tinha seu mundo virado de cabeça para baixo ao ter um romance secreto com o Presidente dos Estados Unidos. Esse símbolo ultrapassou barreiras quando Viola Davis, mais velha que Washington, provou conseguir ser tudo isso e muito mais ao protagonizar How To Get Away With Murder. O reconhecimento, claro, veio com o Emmy de Melhor Atriz em Drama ao dar vida à uma advogada respeitada em sua carreira, mas que esconde segredos obscuros em tramas mirabolantes. Todas elas com seu diferencial, mas todas ligadas a uma forte presença em tela que marca o poder feminino em um mundo ainda dominado por homens. Mas não se depender de Rhimes.

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Viola Davis e Kerry Washington tornaram-se simbolo da mulher e da raça negra na TV. Imagem: ABC

Talvez, o que mais tenha crescido os olhos da Netflix – além dela ser a autora da série mais assistida da plataforma – seja a sua capacidade de diversificar suas histórias em todos os sentidos. Seja pelas etnias, histórias ou abrangência, Rhimes sabe contar um enredo como ninguém. Seu nome tornou-se símbolo de investimento para a televisão, e tudo que leva o seu nome ganha status. A autora não ficou presa a esfera médica imposta por Grey’s Anatomy e soube expandir seu universo de histórias impactantes para um mundo onde em Scandal os Estados Unidos é governado por uma mulher – que sucedeu um Presidente que tinha um caso com sua assessora de imprensa. É, definitivamente, algo não tão distante da realidade. A linha ténue entre a fantasia e a ralidade é o que trazem para a trajetória de Shonda Rhimes um atrativo a mais para suas produções.

Todos esses quesitos, sem dúvidas, chamaram a atenção da Netflix. Ter uma mulher capaz de produzir histórias neste nível é, no mínimo, um privilégio. Séries que possuem símbolos como “Você é minha pessoa” ou “Está resolvido”, são séries que alcançam um nível de impacto mundial. É incrível ver como que, em menos de doze anos, Rhimes saiu da produção de filmes B e conseguiu se firmar no mundo das séries de TV consagradas. E isso é resultado da necessidade que a televisão tinha de dar voz aos oprimidos, com uma oportunidade de contar histórias, antes ignoradas.

Imagem: JAMES WHITE/EW/Release.

Shonda Rhimes tem agora a chance de ficar conhecida para além da “autora assassina”, que mata os personagens de suas tramas sem dó nem piedade – ou por uma necessidade de manter o público fiel a cada semana, afim de que seus programas sejam renovados. Rhimes terá a oportunidade na Netflix de transformar a suas histórias de um lugar que dá voz aos excluídos para um lugar que os transformam em seres elevados e respeitados. Imagine, você fã das produções de Rhimes: se em uma TV aberta ela já consegue arrebatar multidões, imagina com toda a liberdade que uma plataforma de Streaming como a Netflix dará.

Certamente, estamos a um passo de ver a história da televisão ser reescrita. Diria que a ida de Rhimes para a Netflix trará ao mundo séries que marcaram a história da TV como The Sopranos e Breaking Bad. Shonda poderá dar o seu melhor em um local sem limites. Talvez seja isso que ela precisasse. Um local onde ela pudesse ser ilimitada, assim como sua imaginação. Era o passo final para ela alcançar o ápice e o topo da produção das séries de TV.

Que ela continue pioneira, inclusiva e, acima de tudo, assassina. Manda mais Shonda! Mal podemos esperar por essas histórias do novo capítulo de sua vida…

Anderson Narciso

Anderson Narciso

Criador, editor e redator do site Mix de Séries, é apaixonado por séries desde sempre. Fã incondicional de One Tree Hill, ER, Friends, e não perde um episódio da Franquia Chicago.

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