Crítica: Alto Mar, nova série da Netflix, é um “Titanic com mistérios e intrigas”

Nova série da Netflix, Alto Mar serve como passatempo

Alto Mar é a mais nova série espanhola da Netflix. O título vem para acrescentar mais uma das produções de língua estrangeira da plataforma, e acaba acertando em muitos quesitos. Apesar de não ter aspectos que a façam destacar dentre as séries originais da plataforma, a trama é envolvente a ponto de valer a maratona de oito episódios.

Produzida por Ramón Campos, nome por trás da série espanhola de sucesso Gran Hotel, a série Alto Mar sabe vender seu peixe, ao trazer seus acontecimentos para dentro de um luxuoso navio. Com um espaço limitado, dando aos personagens pouco espaço para onde ir, a série desenvolve bem sua proposta, mesmo com alguns pequenos probleminhas.

Titanic encontra o jogo Detetive

Essa, literalmente, seria a melhor definição para a série. Ao se passar em um navio, durante os anos 1940, muitos aspectos lembram a ambientação dada ao navio Titanic no longa do diretor James Cameron. Há uma diferenciação de classes, uma cultura exacerbada que confrontava ricos e pobres. Bem como, há uma “finesse” em alguns dos diálogos – mesmo que poucos. Logo, uma tragédia é esperada. Afinal, esse é um cenário perfeito para tal.

Entretanto, não há a inserção de uma simples tragédia marítima. Em Alto Mar, o problema não está no navio em si, mas sim nos passageiros. É deles que vêm o grande mistério que assombra os oito episódios.

A história começa quando as irmãs Carolina (Ivana Baquero) e Eva (Alejandra Onieva) partem de uma viagem da Espanha para o Brasil. Assim como grande parte dos passageiros, buscam uma nova vida ou recomeço no maior país da América Latina. Elas possuem gênero diferente, mas ao mesmo tempo têm muito em comum, e isso fica claro quando se envolvem com a inserção de uma passageira de forma clandestina no navio.

Tal mulher, a qual elas encontram quase na entrada do navio, é jogada na vida delas – a princípio – por engano. Desconhecida, ela alega que está sendo perseguida por um homem que quer casar com ela, contra sua vontade. E que caso ela não entrasse no navio, ela certamente poderia morrer. As irmãs, assim, se solidarizam com essa dor. Portanto, levantam o lema “mulheres precisam se ajudar”, e a conseguem colocar no navio. Porém, suas vidas viram de cabeça para baixo quando a tal mulher é assassinada e jogada ao mar, dentro do transatlântico.

Irmãs de Alto Mar estão envolvidas em todos os mistérios da trama. Imagem: Netflix/Divulgação.

Quem matou?

Se antes havia a preocupação de que a tripulação não descobrisse da existência dessa mulher dentro do navio, posteriormente começa uma investigação sobre quem poderia tê-la matado, uma vez que ela não estava na lista de passageiros. Esse mistério é, sem dúvidas, um dos charmes da série. Por isso, é engraçado chamarmos essa série como “uma mistura de Titanic com o jogo Detetive“. Porque ao mesmo tempo que ensaiamos uma tragédia em alto mar, na verdade o grande protagonista da série é mesmo a resolução de um grande mistério.

A condução dessa investigação passa então a tomar conta da série logo a partir do segundo episódio. Logo, nos vemos atentos a todas as pistas que a trama tenta jogar para o espectador. E apesar da série “gastar tempo” com cenas um tanto bobinhas, ela não perde muito tempo em mover a história. Já por volta do quarto capítulo o “assassinato” já é praticamente solucionado, e então ele dá espaço para um novo mistério – envolvendo o pai das irmãs. Aos poucos, o quebra cabeça vai se encaixando, e o público percebe que as histórias que antes pareciam aleatórias – ou introduzidas ‘por um acaso’- mostram-se conectadas.

Série tem bons acertos

Talvez o maior barato da série é mesmo tentar desvendar os mistérios propostos. O texto acaba brincando com todos os personagens, que em sua maioria se mostram empáticos ao espectador.

O ator e modelo Jon Kortajarena dá vida ao integrante da tribulação Nicolás. Antes, um ladrão, ele agora tenta levar uma vida correta. Se envolve com uma das protagonistas, e transita nessa dualidade de querer fazer o certo, mas ao mesmo tempo compreender os erros do possível assassino. O mesmo se diz de Fernando (Eloy Azorín), um dos chefes do navio, e também envolvido com uma das irmãs. Ele, eu diria, é sempre jogado como um suspeito das histórias, por seu olhar frio e a falta de sentimentos. Mas mesmo assim, é um personagem que consegue envolver o público.

Jon Kortajarena preenche bem a função de mocinho e galã em Alto Mar. Imagem: Netflix/Divulgação.

Além disso, temos alguns coadjuvantes que movem histórias importantes. A série, por exemplo, deixa claro a todo momento que o público está vendo mulheres fortes. Mas, na mesma proporção, não deixa de lembrar que estamos na década de 1940, onde o homem é o gênero dominador de tudo. E, a todo momento, tentam diminuir o sexo feminino. Seja no aspecto profissional, de forma intencional, ou mencionando o lugar de cada um na sociedade. Até mesmo o fato dos homens, a todo instante, achar que podem salvar as donzelas também se encaixa nessa visão. Tudo isso é muito bem trabalhado pela série. Uma das tramas mais interessantes, desse quesito, é a da cantora do navio, que protagoniza uma das melhores tramas da serie envolvendo um abuso sexual.

Pequenos erros

Como nem tudo são flores, Alto Mar também possui alguns aspectos negativos. Aqui, eu diria que alguns diálogos são bem bobinhos. A direção da série a conduz em um nível de super produção, com tomadas envolventes, efeitos especiais convincentes, e uma ótica até mesmo cinematográfica, e alguns desses momentos são “quebrados” por falas um tanto pobrinhas, que reduz a atração à um tom novelesco. Não é algo extremamente prejudicial, mas em ceras ocasiões incomodam.

Aliás, tal aspecto, acaba dando muito espaço para um “melodrama” desnecessário. Algo que os produtores até alegaram que queriam na série, mas que acabam sendo exagerados demais. Até mesmo para uma produção espanhola.

Outro problema na série é a forma como solucionam os mistérios. Se a introdução dos questionamentos, bem como as investigações são incríveis, a forma como eles são solucionados ou justificados soam um pouco broxante. E isso se repete, tanto no “primeiro mistério”, envolvendo o assassinato da clandestina, quanto no segundo envolvendo as motivações de sua presença no navio. Sendo assim, no final você se exclama, “Ah, é isso?“. É um potencial jogado fora, para uma produção que tenta ser vendida com bons olhos para todo o território abarcado pela Netflix.

Recomendada

Entretanto, tais problemas não comprometem o divertido de maratonar Alto Mar. A questão é que ela poderá acabar se tornando mais uma das séries da Netflix que você descobre por acaso, assiste e fica naquilo mesmo. Mas Alto Mar representa um papel social importante na construção de tramas dentre as séries da atualidade. Ela se mostra em compasso com seu tempo, na defesa do protagonismo feminino, e empenhada em fazê-la da melhor forma possível.

A série, no fim das contas, acaba servindo como um divertido e intrigante passatempo para você se deliciar em uma tarde de folga. De qualquer forma, é uma série que recomendamos, mesmo que seja apenas para isso.

Leia também: O FINAL DE ALTO MAR EXPLICADO – SAIBA O QUE ACONTECEU

 

Nota da Temporada8
Crítica de Alto Mar, nova série espanhola da Netflix.
8
Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.

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