Crítica: Servant, série do Apple TV, é um horror bizarro e envolvente

Servant conta história bizarra com ótimo elenco e diversos mistérios

O horror, no cinema e na televisão, sempre encontra uma forma de se manter relevantes. Enquanto outros gêneros sofrem e desaparecem (os musicais, por exemplo), o horror insiste em permanecer como uma das manifestações artísticas mais firmes da ficção.

Continua após a publicidade

Nos último anos, o gênero tem reflorescido e o público tem se habituado a um modo diferente de se contar esse tipo de história. Sai o slasher dos anos 1980, a metalinguagem adolescente dos anos 1990 e entra o terror observacional, introspectivo, quieto. Autores se debruçam mais na preparação e manutenção da ambientação e do suspense do que no susto e na violência gráfica. Servant, da Apple Plus, entra neste grupo.

Criada por Tony Basgallop e parcialmente dirigida por M. Nigh Shyamalan, Servant acompanha um casal em crise que, depois de perder o filho ainda bebê, adota um boneco como forma de terapia. O método não ganha aprofundamento pelo roteiro, mas compreende-se que o processo ajuda na entendimento da perda e na aceitação da dor. Trata-se, portanto, de uma atividade temporária. Como se não fosse esquisito o bastante, a história se complica quando o casal resolve contratar uma babá para o boneco. Não demora para ficar claro que a tal babá é tão ou mais problemática que o casal central.

Premissa estranha é ancorada por ótimo elenco

A premissa é perigosa por dois motivos óbvios: primeiro pela estranheza e segundo pela capacidade de elasticidade da ideia. É possível desenvolver uma história longa, seriada, com um ponto de partida tão louco e curto? Levando em consideração os três primeiros capítulos, a resposta é clara: Servant tem muito para contar. Começando com a chegada da babá, o roteiro joga o espectador direto na dinâmica quebrada do casal. Há muitos segredos escondidos e palavras não dita, há muita vida vivida antes da narrativa começar. Parte da diversão é justamente tentar descobrir quem são aqueles personagens e o que os levaram até ali.

Grande parte do sucesso da intriga se dá às belas atuações de Toby Kebbell e Lauren Ambrose. A atriz, que ficou conhecida por sua participação em Six Feet Under, entrega um papel totalmente diferente daquele visto na série da HBO. Dorothy, sua personagem em Servant, claramente passa pelo pior momento de sua vida, e a dor e o desequilíbrio são vívidos em seus olhos e trejeitos. Neste sentido, Ambrose quase rouba a cena em uma atuação precisa, que jamais se perde em maneirismos e exageros. Já Kebbell faz um ótimo trabalho ao afastar a figura de Sean do pai desconfiado que se torna vítima das circunstâncias. Aqui, Sean também é um sujeito dolorido que encara a depressão do próprio modo.

Série é dirigida por M. Night Shyamalan, de O Sexto Sentido e Corpo Fechado

O talento do elenco, portanto, é imprescindível para o funcionamento da série. Servant é, para todos os efeitos, uma história de câmara, onde toda a ação acontece em um só local. As cenas externas são raras e tudo se desenrola entre as paredes da casa, rendendo uma atmosfera claustrofóbica que catalisa a sensação de incerteza e insegurança. O inimigo, afinal, pode estar dentro da própria casa, mesmo que não saibamos quem é o tal inimigo. Nesta perspectiva, é interessante perceber que Sean, o protagonista, frequentemente reclama das condições da casa, chegando a se engasgar com um pedaço de uma colher de madeira. Assim com sua vida e casamento, a casa está desmoronando, caindo aos pedaços, embora exiba uma fachada aparentemente inabalável.

O cuidado com os detalhes e com o ritmo se deve, em grande parte, à direção de M. Night Shyamalan no piloto. O cineasta brinca com a câmera e cria movimentos e enquadramentos inventivos para dinamizar a narrativa. Assim, Shyamalan comprova toda sua inteligência como um contador de histórias com total apuro estético. Sem o seu dinamismo e faro visual, Servant poderia sofrer com falta de ritmo. Note, por exemplo, uma das primeiras conversas entre o casal e a babá: olhando diretamente para a câmera, o casal fala e se movimenta de forma que um parece sempre encurralar ou interromper o outro, deixando claro o desalinho da dupla.

Horror, suspense, drama familiar e um toque de fantasia rendem um dos melhores projetos da Apple TV Plus

Shyamalan ainda acerta ao criar uma aura de paranoia entre os personagens e na casa. Neste ponto, Servant se aproxima dos suspenses de Roman Polanski, como O Bebê de Rosemary e O Inquilino: há uma sensação de ameaça constante, além de uma atmosfera que beira a fantasia e o sonho. Repare nas reportagens de Dorothy na televisão: até mesmo em frente às câmera, no trabalho, a jovem parece exibir um desequilíbrio preocupante, quase encenado. Toda a angústia é marcada pela trilha presente e enervante de Trevor Gureckis além da fotografia de Mike Gioulakis, que frequentemente brinca com luzes e sombras.

Servant é, por fim, uma interessante mistura de horror, suspense, drama familiar e um leve toque de fantasia, ao estilo de alguns dos sucessos de Shyamalan. Resta acompanhar para saber se as respostas serão dadas e se a história permanecerá envolvente e relevante. Com episódios de 30 minutos, Servant é uma experiência enervante e intrigante, sendo uma das melhores e mais interessantes estreias da Apple Plus.

Nota8.3
8.3
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

No comments

Add yours