Hipster em Série: Fleabag, representatividade e e-mails vazados

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Você lembra do caso dos e-mails vazados depois que a Sony, poderosa produtora e distribuidora, foi hackeada em 2014? Caso não recorde, aqui vai um pequeno panorama: na época, o filme A Entrevista vinha fazendo polêmica. Norte-coreanos ameaçavam os Estados Unidos caso o filme viesse à público. O longa-metragem estreou de qualquer jeito, ainda que de forma bem mais modesta. No mesmo período, a Sony foi hackeada e milhares de e-mails foram vazados na web, disponíveis na WikiLeaks para qualquer um acessar. Nos e-mails haviam muita coisa feia, interessante, engraçada, absurda, e por aí vai. Os e-mails serviram como uma pequena espiada no universo selvagem da produção cinematográfica e televisiva americana. Muitos afirmam que a polêmica envolvendo a comédia de Seth Rogen foi o que motivou a invasão aos computadores da empresa.

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De todo modo, e entre tantos e-mails interessantes (em um deles, David Fincher, um dos melhores diretores contemporâneos, aponta que a Sony tem um sério problema com vazamento de informações), um vale ser apontada aqui. Aaron Sorkin, um dos mais influentes roteiristas do cinema e da televisão, levantou uma questão importante em e-mails trocados com a cúpula da empresa. Sorkin criou The West Wing e The Newsroom, além de ter vencido o Oscar por A Rede Social; além disso, ele é um sujeito que entende e conhece a indústria. No texto, o roteirista comenta que é muito difícil ter papeis e atuações femininas desafiadores, que possam competir contra os homens. Assim, sem muito contexto, o comentário de Sorkin parece machista e ignorante, mas se pensarmos e analisarmos toda a mensagem, o pensamento faz sentido.

O que ele quis dizer é que o problema está na indústria, e não com as atrizes. Para argumentar, Sorkin comenta os últimos vencedores do Oscar: Daniel Day Lewis venceu por uma monstruosa atuação em Lincoln, enquanto Jennifer Lawrence ganhou por algo que “qualquer atriz profissional seria capaz de fazer”. Ele ainda cita Sandra Bullock, que venceu por um papel simples, e muitas outras, apontando que apenas gente como Meryl Streep e Helen Mirren conseguem e igualar aos homens. A mídia nacional e internacional tratou de divulgar o e-mail como um comentário maldoso do roteirista, mas não atentaram para o foco: a indústria não oferece papeis desafiadores às mulheres. As atrizes são capazes, talentosas e inteligentes, mas os produtores não lhes dão papeis dignos. Sorkin afirma e a triste realidade comprova: as vencedoras do Oscar de Atriz raramente podem competir com os indicados a Melhor Ator.

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O que isso tem a ver com séries e Fleabag? Tudo. A comédia criada por Phoebe Waller-Bridge coloca uma personagem feminina no centro da história e tudo gira e corre dependendo dela. E não se trata de um mero papel de “esposa”, de amiga ou qualquer outro papel vazio relegado às mulheres. A própria Phoebe protagoniza a história de Fleabag, uma jovem independente que vive em meio a problemas financeiros, amoroso e familiares. Ela é dona de um café e encontra-se em depressão depois que sua melhor amiga morreu. Sua irmã é distante, o namorado parece em outra sintonia, apesar de amá-la, e o pai se relaciona com uma mulher que a odeia.

Fleabag é uma comédia das boas, daquelas de garantir boas gargalhadas, mas é, também, um drama poderoso. Com seis episódios, a série surpreende com sua carga dramática em momentos pontuais, principalmente na season finale destruidora. Tudo que há de melhor no programa está sobre os ombros da excelente Waller-Bridge. Engraçada, talentosa como atriz e genial como roteirista, Phoebe se entrega de corpo e alma ao papel, que veio de um monólogo que ela mesma escreveu e interpretou nos teatros. A atriz usa sua beleza e suas peculiaridades da melhor forma possível: naturalmente. Ela não é nenhuma modelo, é uma mulher “normal” e, por isso, linda.

O que há de mais bacana na série é que a personagem fala diretamente com o público várias vezes, assim como Frank Underwood em House of Cards. Ela quebra a quarta parede sem que seu companheiros de cena percebam. Só ela fala com a gente, e seus comentários são sensacionais. Seja em momentos de tristeza profunda, no banheiro ou até mesmo durante uma transa, Fleabag olha para a câmera e fala o que está passando em sua cabeça. Muitas vezes são piada, mas na maioria é puro desenvolvimento de personagem. Conhecemos Fleabag em grande parte pelo que ela nos conta. Segredos, ideias, comentários ou até mesmo olhares; Fleabag se abre com o público sem pudores.

Soma-se a isso um elenco incrível de coadjuvantes e uma direção cheia de vida. A câmera se move, vai a lugares diferentes, explora o espaço e seus personagens de formas interessantes, algo pouco explorado em comédias. Para melhorar, Fleabag é jogo rápido: seis capítulos de vinte e poucos minutos cada. No final você verá que atrizes podem estar lado a lado aos atores, sem perder em nada. É só ter o material certo em mãos. Elas podem.