Independence Day: O Ressurgimento do blockbuster descompromissado

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Independence Day, o primeiro, lançado em 1996, é um clássico moderno. Nem tão antigo e nem tão bom quanto Tubarão, ET ou De Volta Para o Futuro, ID é um dos maiores símbolos do cinema dos anos 90. O diretor Roland Emmerich e seu time ajudaram a moldar o blockbuster como o conhecemos hoje. Se Steven Spielberg deu o pontapé inicial com Jaws e desenvolveu o “arrasa-quarteirão” com Indiana Jones e Jurassic Park, Emmerich deu uma nova tonalidade e abordagem ao modo de se fazer uma superprodução campeã de bilheteria. Duvida? ID lançou Will Smith, teve uma campanha de marketing massiva, era o assunto cinematográfico principal na época, foi um estrondo de bilheteria (quase um bilhão, em uma época que tal cifra não era recorrente como hoje) e definiu o cinema catástrofe, aquele que destrói cidades sem dó, em um subgênero. Aqui no Brasil, o longa-metragem virou clássico e nostálgico devido à TV aberta, que reprisou a fita tantas vezes que, hoje, ela está impregnada no imaginário coletivo.

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Independence Day: O Ressurgimento, sequência lançada vinte anos depois do original, é um filme preso no tempo. À despeito da tecnologia atual, o longa também parece ser de 1996, mas lançado em 2016. Além disso, é bobo, absurdo, clichê pouquíssimo preocupado com lógica. Em suma, uma pastiche que chega a se auto plagiar. Mas isso, acredite, faz de Ressurgimento divertidíssimo, além de estar à altura do anterior. Todos estes pontos, geralmente negativos, têm papel positivo na nova aventura destruidora de Emmerich. Isso porque ID2 não tem vergonha de si mesmo; não há receio de soar absurdo e não há, principalmente, vontade de ser sério. Em uma época onde até mesmo os filmes da Marvel têm se tornado mais sombrios, ID2 representa o ressurgimento de um blockbuster legitimamente descompromissado.

Era esse desprendimento que o primeiro ID pregou há vinte anos e os blockbusters tentaram copiar e muitas vezes acabaram falhando. Nos últimos anos, os arrasa-quarteirão se transformaram em dramas pesados, escuros, cheios de camada. Isso não é ruim, pelo contrário. Essa onda nos entregou diversas obras excelentes. O problema é que nem sempre isso funciona. Às vezes é necessário ser colorido e “largado”. Quais os melhores blockbusters recentes? Penso rapidamente em O Despertar da Força, Guardiões da Galáxia e, claro, Estrada da Fúria. Nenhum destes é sombrio e todos caíram nas graças absolutas da crítica e do público. Ainda assim, todos ainda continham uma seriedade necessária. Nenhum destes filmes é uma brincadeira. Ressurgimento, portanto, está ainda mais “fora da curva”, pois não tem nenhum pingo de seriedade e parece, realmente, uma grande brincadeira.

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Jeff-Goldblum-and-Liam-Hemsworth-in-Independence-Day-ResurgenceÉ claro que isso rende uma série de problemas. A falta de compromisso não faz dele único ou melhor que outros filmes, apenas o coloca em um terreno diferente e nos faz pensar e debater acerca da indústria atual. Emmerich ajudou a criar essa indústria insana que temos hoje, e vinte anos depois parece querer recriá-la novamente, indo contra o que tem sido feito. Seu poder de mudança, contudo, parece afetado e é quase certo que o impacto deste ID não seja o mesmo daquele de 96. O cineasta, porém, não parece ter essa pretensão toda. A história é simples e manjada: depois da batalha e vitória do primeiro filme, a humanidade avançou com auxílio de tecnologia alienígena. Vinte anos depois, tudo vai bem até que a ameaça está de volta, com muito mais poder bélico e sede de vingança.

Para contar essa história, Ressurgimento reutiliza diversos clichês, alguns que a própria franquia criou há duas décadas. Tem (muito) discurso, crianças órfãs, pets em perigo, comemorações quando algo dá certo, o personagem histriônico, o alívio cômico, e muito mais. Até no humor ID2 é simples e bobo, o que acaba não funcionando em diversos momentos. Emmerich e seus roteiristas enxergam uma piada fácil e a abraçam com gosto. É possível prever a maioria das gags antes que aconteçam; é tudo muito lúdico e previsível. Essa previsibilidade pode funcionar em alguns momentos de descontração escancarada, mas prejudicam o desenvolvimento quando antecipam supostas reviravoltas importantes do roteiro. A explicação para as visões e para a primeira nave destruída pelos humanos, por exemplo, é óbvia desde o primeiro instante.

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Ainda assim, o filme encontra espaços para surpreender de forma positiva. O terceiro ato é diferente do que poderia se supor. Ao invés de investir em uma batalha parecida com a do primeiro longa, ID2 prefere algo que é, de certa forma, mais contido, mas ainda assim empolgante. É um clímax legítimo que ainda representa o melhor uso de efeitos visuais do projeto por mesclar CGI com elementos reais de forma crível, algo que não acontece sempre. Vale apontar, aliás, que a parte técnica do filme é, sim, elogiável. A destruição é muito mais “aceitável” e bem feita do que aquela vista em 2012, também de Emmerich. De todo modo, alguns momentos falham ao ter sua natureza digital escancarada. O uso de chroma key, por exemplo, é problemático em algumas sequências, o que prejudica a experiência.

Ao fim, Independence Day: O Ressurgimento agrada. Cheio de furos, o filme compensa com acertos surpreendentes. Quem diria, por exemplo, que a duração de um filme seria motivo de elogios? Pois ID2 também merece destaque por ir na contramão dos blockbusters de quase três horas, entregando um projeto fechado em menos de 120 minutos. Para completar, é preciso comentar rapidamente sobre o elenco: há, infelizmente, personagens demais em Ressurgimento. Este é um problema das superproduções que o longa não conseguiu deixar de lado. São tantos nomes e rostos que mais da metade não recebe a atenção merecida. O roteiro não tem um, mas três presidentes americanos sendo paparicados aqui e acolá. Além disso, os novos atores parecem deslocados do grupo formado pelos atores do primeiro filme. Dentre as críticas, contudo, um elogio deve ser feito: à parte da polêmica envolvendo a atriz Mae Whitman, ID2 investe na diversidade. Dois dos melhores personagens formam um carismático casal gay; dentre os heróis há gente de todas as cores e nacionalidades. Pode parecer bobagem, mas talvez seja o maior acerto deste novo Independence Day.