Jessica Jones – 1×07 – AKA Top Shelf Perverts

Imagem: Arquivo Pessoal

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

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“I’m a piece of sh*t, and sh*t stinks.”

A jornada do herói geralmente envolve falhas. Envolve decair até os lugares mais sombrios, antes de poder enfrentar seus maiores inimigos, ver a si mesmo num lugar muito pior do que aquele ocupado por esses inimigos, para poder ter a coragem de tomar qualquer medida – desesperada ou não – para tentar mudar o curso dos fatos. “AKA Top Shelf Perverts” traz exatamente esses momentos. O episódio nos leva à queda de Jessica Jones e de tudo aquilo que ela considerava importante, e à uma queda maior ainda, quando a ação desesperada faz com que ela retorne ao último lugar que ela desejaria estar: ao lado de Killgrave.

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O episódio já começa dando continuidade – para aumentar ainda mais o nosso terror – às incursões de Killgrave na vida de Jones. Desta vez, o vilão chegou a ir até à Alias Investigation. E cada vez mais fica claro que o plano dele para destruí-la terá proporções épicas e requintes de crueldade singular.

Para a infelicidade de alguns, em seu momento predador, Killgrave acaba por encontrar com Ruben. E é claro que, pesando e medindo os dois, não é difícil imaginar que o jovem acabe revelando seus sentimentos por Jessica, para desagrado do vilão. Mas, correndo o risco de deixar uma má impressão, não posso deixar de mencionar que, esperava mais “sofisticação” de Killgrave do que simplesmente fazer o rapaz cortar a própria garganta na cama de Jessica.

Desenrolares e consequências são o centro do episódio. Depois de contar a verdade a Luke, Jessica está no seu pior ponto – assim como, mais cedo nesse ano, Murdock esteve antes de conseguir derrotar o Kinpin (mais uma vez, qualquer semelhança é mera coincidência) – e preparada para fazer as escolhas erradas. Tendo uma dívida com Hogarth que, convenhamos, deve ser paga o mais rápido possível, Jessica decide ir a extremos para convencer Wendy a assinar os papéis do divórcio.

E já que estamos no assunto, eu realmente temi que ela pudesse jogar (intencionalmente) Wendy nos trilhos. Pior, eu temi que quando Jessica entrou nos trilhos, ela fosse se deixar ficar lá. Todas as coisas que ela disse em voz alta – não para Wendy, mas para ela mesma – são só mais uma amostra do estado em que ela se encontra depois do que aconteceu com Luke.

Uma redundância da trama precisa ser registrada. O episódio já tinha se assegurado que o estado de Jessica não deixasse margem para interpretação. Trazer um Malcolm “saudável” e dando lições sobre sobriedade não acrescenta em muito à história, exceto pela resposta de Jessica – “sobriety blows”. Certo, justifica a presença de Malcolm no resto dessa parte da trama, funcionando como uma força de razão para tentar impedir Jessica de cometer o erro de assumir a culpa pelo que aconteceu com Ruben… mas mesmo assim foi meio redundante.

Ritter nunca deixa a desejar em sua atuação. Seja incorporando o pior lado de Jessica, ou silenciada pelo pavor, ela consegue transmitir uma singularidade a personagem, uma verossimilhança com o que se espera ser a reação – não de uma pessoa normal, mas de um herói moderno – àquilo, e ela faz isso de maneira impecável. A cena da ponte, como se um último gosto de liberdade, um último olhar sobre Nova York, sobre Hell’s Kitchen, fosse o convencimento que faltava para que ela pudesse ter a coragem necessária para ir adiante com seu plano, foi algo de beleza singular (o discurso dela sobre despedidas foi emocionante). A cena dela na sala de interrogação com Clemons também não deixou a desejar.

Noutra parte da cidade, depois do que pode ser considerado um “entretenimento” razoável, Trish e seu soldadinho refletem sobre o que aconteceu e, apesar de tudo, foi interessante ver que exposição prolongada ao seu quase-assassino não mudou as convicções morais de Trish. Enquanto Simpson continua sua campanha de “morte a Killgrave” – não que seja uma má ideia, quando consideramos os fatos, mas eu não podia deixar de criticar o soldadinho, principalmente porque ele acaba mentindo para Trish, o que, depois do plot twist do final, sugere que ele pode acabar matando Killgrave e Jessica –, ela continua buscando uma forma de fazer a verdade sobre o caso de Hope se tornar pública.

Mesmo que seja difícil, em condições normais, sentir qualquer nível de empatia por Robyn, é impossível não se compadecer dela quando a realização de que ela perdeu o irmão (a única e última pessoa que ela tinha), definitivamente.

O tom encerramento, de “acerto de contas”, que o caminho de Jessica até a Delegacia tem foi interessante e, ao mesmo tempo, depressivo. Ir até a mãe adotiva para lembrar que sempre defenderá Trish (não importa onde ela acabe), ir até o bar procurar por Luke e até mesmo – sim, eu sei, é difícil de acreditar – procurar Hogarth, são medidas desesperadas, uma tentativa de fazer os acertos finais, antes que a cortina se abra.

E já que mencionei Hogarth, quem diria que Wendy sabe revidar? Depois de ter sido encurralada por Jessica, a ex-wife to be decide elevar as apostas e retribuir a ameaça com uma cartada ainda mais alta. Não esperava que Hogarth tivesse realmente contado a Pam sobre esse suborno, mas fiquei surpreso que a famigerada advogada, tenha ficado temporariamente sem resposta para a ameaça.

A série merece crédito duplo pela maneira com que decidiu lidar com o corpo de Ruben. A decapitação manual combinada ao clássico “jogar o corpo no rio” – eternizado em todos os filmes de máfia imagináveis – foi um resgate da essência de Hell’s Kitchen, da Hell’s Kitchen que abriga o Rei do Crime e tantos outros, do lugar sombrio, onde coisas assim são corriqueiras. E, como se isso não bastasse, ainda temos a entrada de Jessica na delegacia, despejando a cabeça de Ruben na mesa do Detetive Clemons de maneira tão bad ass que chega a ser difícil descrever.

Imagem: Banco de Séries

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

David Tennant simplesmente rouba a cena. O trailer já havia nos dado uma ideia de que uma cena na delegacia seria realmente dramática, mas não esperava por tanto. O cinismo, o desprezo, a insanidade refinada até alcançar a sua maior pureza; ele consegue mostrar todas essas coisas e faz isso de maneira simplesmente brilhante. Porque, apesar de todas essas coisas, e daquela pequena voz na sua cabeça que diz que você deveria temer e odiar ele da maneira mais visceral possível, você simplesmente não consegue. Mesmo quando a “declaração de amor” – “I am trying to profess eternal love here, people!” – dele vira um retrato caricato e doentio dos clichês tão usados na TV que ele alega assistir, é simplesmente impossível sentir toda (ou qualquer porção ou forma dela) a repulsa que se deveria.

O episódio termina num momento crítico, e com ele, uma infinidade de questões surge. O que acontecerá com Jessica agora que ela está novamente com Killgrave? Qual é o plano final dele? Será que o soldadinho vai tentar matar Killgrave e Jessica? O que Trish e Malcolm vão fazer? Essas são respostas que só assistindo “AKA WWJD?” nós podemos obter. Felizmente, a Netflix não nos fará esperar para descobrir. Então, assistam o próximo episódio e não deixem de conferir a próxima review do Mix sobre Jessica Jones.

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