LA Times discute obrigações financeiras da Netflix e questiona seus investimentos

Imagem: Divulgação

Quando a Netflix foi fundada, a Internet era jovem, os DVDs eram populares e ninguém considerava assistir a um filme transmitido on-line.

Vinte anos depois, a transformação da Netflix de um serviço de DVD por e-mail para a central de Hollywood – que redefiniu a produção e o consumo de TV e filmes – foi notável. Atualmente, o gigante global de streaming possui algumas estatísticas impressionantes: 104 milhões de assinantes em todo o mundo, um aumento de 25% em relação ao ano passado e quase quadruplicado de cinco anos atrás. Suas séries e filmes representam mais de um terço de todo o tráfego de Internet de download no horário nobre na América do Norte. As mais de 50 séries originais obtiveram 91 nominações ao Prêmio Emmy este ano, ficando atrás apenas da HBO.

Mas há outro conjunto de números que poderiam significar problemas para o crescimento vertiginoso da empresa. A Netflix acumulou o valor de $ 20,54 bilhões em dívidas e obrigações a longo prazo, em seu esforço para produzir mais conteúdo original, relatou uma matéria publicada no LA Times neste domingo (31).

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A matéria ressalta que a Netflix está despejando dinheiro em projetos caros, tendo gasto apenas este ano mais de U$ 6 bilhões em conteúdo. Sua saída líquida de caixa este ano deverá crescer até US $ 2,5 bilhões, ante US $ 1,7 bilhão no ano passado. Refletindo o seu crescimento, a Netflix mudou recentemente a sede da Califórnia do Sul para um edifício de 14 andares em Hollywood.

Até agora, os investidores da Netflix estão apostando que o financiamento da dívida a curto prazo criará crescimento e produzirá grandes resultados no caminho da teoria de que você precisa gastar dinheiro para ganhar dinheiro.

As ações da Netflix subiram mais de 10% neste mês, depois que apresentaram crescimento de assinantes melhor do que o esperado. Mas alguns especialistas da indústria estão alertando sobre uma bolha da Netflix que pode explodir se a empresa não produzir séries de sucesso suficientes para continuar atraindo novos assinantes. “Ninguém sempre é o jogador dominante para sempre”, disse Mike Vorhaus, presidente da Magid Advisors, consultor de mídia e vídeo digital. “Eu acho que eles vão precisar de sorte para não se afogar em dívidas na última desaceleração do crescimento”.

Ainda assim, não é esperado que a Netflix acabe em breve. A estratégia da empresa é investir mais e mais em séries originais autoproduzidas, como Stranger Things e Desventuras em Série, voltado mais para o público infanto-juvenil e que deem retorno garantido. 

Como resultado, a Netflix disse que espera “ser livre de caixa negativo por muitos anos”, o que significa que continuará sangrando dinheiro em um futuro próximo.

Uma grande parte das despesas da Netflix vai ao licenciamento de séries de TV e filmes. Muitos das séries mais populares e aclamados da Netflix – como Orphan Black são licenciados de outros estúdios apesar de serem comercializados como “Original Netflix”. Sem contar as séries de grande sucesso do catálogo que não tem qualquer parte de produção do serviço, como Grey’s Anatomy que é hoje a série mais assistida da Netflix e é produzida pela ABC.

A título de curiosidade, algumas das séries mais conhecidos da Netflix não são feitos pela Netflix em si. Orange Is the New Black é produzido pela Lionsgate, e House of Cards vem da Media Rights Capital, um estúdio independente de cinema e televisão. The Crown é uma produção de Sony Pictures Television, enquanto Iron Fist é uma criação da Marvel. A Netflix paga taxas de licenciamento não divulgadas pelos direitos exclusivos para transmitir essas séries. E muitas dessas taxas deverão crescer ao longo do tempo, já que as redes de TV – que ficaram cada vez mais preocupadas com a Netflix – buscam proteger seus negócios contra uma erosão adicional.

House of Cards, um dos maiores sucessos da Netflix é produzida pela  Media Rights Capital, um estúdio independente. Imagem: Netflix/Divulgação (Reprodução)

Mas os especialistas dizem que construir um catálogo de títulos imperdíveis pode demorar anos, mesmo décadas, e requer um desembolso de dinheiro enorme. A HBO criou inúmeros shows de sucesso, incluindo Game of Thrones, mas mais de metade do conteúdo consumido pelos assinantes do gigante de cabo ainda está licenciado pelos seus parceiros de conteúdo.

A Netflix ainda é bastante baixa na curva de aprendizado em comparação com a HBO, e suas séries originais autoproduzidas tiveram sucesso misto. Considerando que Stranger Things rapidamente se tornou um sucesso de público e crítico, isso mostra como Santa Clarita Diet e The Ranch até agora não conseguiram gerar muito buzz.

“Eu não acredito que Netflix vai conseguir isso direito em uma taxa melhor do que qualquer outra pessoa”, disse Michael Pachter, um analista da Wedbush que há muito tem pessimismo com a empresa. Ele disse que sua classificação de “baixo desempenho” nas ações da Netflix foi errada no passado, mas acredita que as despesas excedentes da empresa acabarão por alcançá-lo.

O serviço de streaming, vem cancelando mais séries nos últimos meses, incluindo produções caras como The Get Down e Sense8. Mas a empresa disse que renovou 93% de seus shows e continua a exibir novos shows a um ritmo acelerado, com uma crescente ênfase em títulos estrangeiros para atender aos seus mercados estrangeiros.

A empresa espera que com mais novas séries originais, o número de assinantes cresça ainda mais, uma vez que este é seu principal motor de receitas. Mesmo que seja custoso produzir séries originais, e a esteja causando dívidas, a intenção é investir em séries que apresentem retorno financeiro para que, com o tempo, o serviço passe a ter perda de dinheiro. No mercado também está havendo uma pressão para a produção de conteúdo original, uma vez que os rivais como a Amazon e o Hulu estão expandindo a sua própria programação original. Mesmo com o corte de gastos, a empresa deposita esperanças nestas assinaturas, para que futuramente haja uma estabilização de seu caixa.

ATUALIZAÇÃO:

Em nota enviada por e-mail nesta terça (01), a Netflix respondeu a publicação original que saiu no domingo (30) no jornal LA Times, alegando que eles calcularam erroneamente a dívida.

“A matéria do LA Times calcula erroneamente nossa dívida com o valor de US$ 20 bilhões ao considerar nossas obrigações de transmissão (por exemplo, contratos de conteúdo com estúdios), no valor de US$ 15,7 bilhões, como parte dessa dívida, o que não procede. Temos uma dívida total bruta de US$ 4,8 bilhões versus o nosso valor no mercado de ações que é de US$ 75 bilhões. Contextualizando, os US$15,7 bilhões são referentes à gastos futuros com conteúdos que trarão resultados ao longo do tempo. Todos os canais de televisão aberta e a cabo, além de serviços de streaming, têm contratos de licenciamento e utilizam a mesma estrutura. Como referência, Disney/ESPN tem US$49 bilhões em compromissos similares para contratos relacionados a esportes.”, destacou a nota.

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Anderson Narciso

Anderson Narciso

Criador, editor e redator do site Mix de Séries, é apaixonado por séries desde sempre. Fã incondicional de One Tree Hill, ER, Friends, e não perde um episódio da Franquia Chicago.

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    SubZylok 31 julho, 2017 at 19:53 Responder

    Então… Não sei muito sobre ivestimentos, mas sei algo sobre séries. E o sucesso da HBO se deu pelo investimento nas séries de sucesso, e inclusive quando estas não deram mais tanto retorno eles cortaram, como Roma e Deadwood.. mesmo que aclamadas. A Netflix não tinha necessidade em investir multimilhões em Marco Polo, Get Down, Sense 8 e inclusive The Crown. Três dessas séries foram ótimas, porém o custo benefício pro streamer foi bem abaixo do esperado, mesmo sendo óbvio que o retorno era inviável. No momento, a solução que me vem à cabeça é mandar essas séries de alto custo pra uma última temporada ( ou cancelar, como já fizeram ) e começar a investir mais em séries de médio porte, como Stranger Things, investindo mais futuramente, caso o retorno apareça, mesmo que a crítica especializada veja isso como um retrocesso. Pq no final do dia é o divertimento das pessoas comuns que pagam as séries. AHHH, e seria bom começar a pensar em propagandas tbm.

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