Por amor aos vilões

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

Recentemente, numa das poucas horas legadas à trivialidade nesses tempos de incontáveis afazeres, a chamada para a segunda reprise de Senhora do Destino chamou minha atenção. A novela, que retorna ao ar no próximo dia 13 de março – treze anos depois da exibição original e oito anos depois de sua última passagem pelo Vale a Pena Ver de Novo – é uma favorita do público e traz de volta uma das vilãs mais icônicas da TV brasileira, a dona de páginas de humor, memes e jeitos criativos de se matar os inimigos: Nazaré Tedesco.

Mas ela não é a única. Seja pelo cinismo, pelo humor ou simplesmente pela magnitude da vilania, os vilões, que são fundamentais para a estrutura da trama, têm se tornado a parte favorita de muitas produções, facilmente angariando legiões de fãs e toda uma comoção pública para suas causas – a teledramaturgia brasileira e o todo da cultura pop são cheios desses exemplos.

Continua após a publicidade

Para alguns, os vilões são a personificação dos lados de nós que escondemos. E por mais preocupante e potencialmente problemática essa ideia seja, ela não é de todo carente de mérito. Afinal, Freud apresenta o id para explicar certos impulsos… e mesmo que esses impulsos sejam inconscientes, o vilão nos fornece certa realização desses impulsos sem nos fazer sair, na vida real, da égide de bondade cotidiana.

Na verdade, é possível argumentar que só o que nos separa dos vilões é a situacionalidade. Remova as amarras sociais e veja se ainda teríamos ressalvas para certos comportamentos. Os vilões são viscerais e, salvo pelos julgamentos da sociedade a que acabo de me referir, facilmente abraçaríamos nosso lado mau. Como vilão, tudo é permitido e sem a certeza dos fins violentos, nos entregaríamos sem culpa as violentas alegrias da maldade.

É claro, a questão do vilão é, atualmente, muito mais complexa do que maldade por maldade. O que faz dos antagonistas nossos queridinhos é a complexidade de sua condição. Raro vemos um vilão que seja mau pelo exercício de ser mau. A vitimização pelo sistema, dualidades inerentes e toda sorte de transtornos psicológicos tentam (e sucedem) fazer do vilão um ser humano mais verossímil e, cá pra nós, isso tem funcionado. Afinal, nem mesmo a ficção consegue abrigar maniqueísmos de bom e ruim; a realidade é bem mais complicada do que dois extremos e o papel do vilão transita exatamente por essa miríade de pontos de vista que formam o cotidiano.

Há ainda a consciência do Outro. Afinal, quanto maior a brutalidade do vilão, quanto mais de agente de caos e anarquia ele adjunja a si, maior será a gratificação em nosso subconsciente por A) não sermos o alvo daquelas ações, e B) por não sermos nós cometendo as atrocidades.

Vingativos, inescrupulosos, corruptos, assassinos, adúlteros, maquiavélicos… Adjetivos para a turma dos vilões não faltam. Contudo, eles são mais parecidos conosco do que gostaríamos. Embora o nível do sórdido que nos negamos ou nos entregamos seja variado, sejam segredos inconfessos, busca por poder e aquela boa e velha manipulação acompanham a condição humana. Afinal, e sinto se estas linhas ofendam alguém, felicidade em tempo integral não rende boa história. É irreal, e pior, é cansativo. Racionalidade depende do seu horizonte de expectativa para o irracional. Entendimento requer confusão. Respostas dependem das perguntas. Porque o bom não teria sua contraparte? Amemos os vilões, porque há mais deles em nós do que gostaríamos de acreditar. E, querendo ou não, os vilões dão a vida um je ne sais quoi muito divertido.[posts count=”10″ orderby=”popular” cats=”” tags=”” relation=”OR” ][/posts]

Tags Editorial
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.

No comments

Add yours