Precisamos falar sobre…a influência da televisão norte-americana na produção nacional

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OK, o formato da narrativa seriada não é invenção dos gênios da TV norte-americana. Tampouco o é de Émile Girardin, Alexandre Dumas, Honoré de Balzac e Victor Hugo, na França, e Charles Dickens, na Inglaterra, que na segunda metade do século XIX valeram-se da estrutura das histórias seriadas e tornaram populares os romances folhetinescos, publicados em jornais da época. O que falar então das radionovelas? E se formos ainda mais longe, encontra-se em As mil e uma noites um dos primeiros registros na literatura de um enredo serializado. Indo mais além, para estabelecermos de uma vez que o cerne de processo, dessa ação que não é uma invenção moderna, temos a narrativa, em seu grau mais simplório e cronológico, intrínseca à história do próprio homem. Afinal, mesmo sem o domínio da escrita, histórias são narradas pela fala.

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Então por que se fala tanto na TV norte-americana quando se fala em narrativa seriada?

Porque foram os norte-americanos os primeiros produtores e roteiristas a levarem e adaptarem o formato para a televisão e o fazerem bem. E é lá tá bem que inovações tecnológicas, técnicas, estilísticas, narrativas e estéticas costumam tomar corpo, ganhar as telinhas e o mundo. Foi assim nos anos 50, 60, 70, 80, 90, nos anos 2000 e tem sido assim agora. Ciclos que compõem as Eras de Ouro da televisão norte-americana, indo de I Love Lucy a Mad Men, passando por Twin Peaks e The Sopranos.

Tá. Mas narrativa seriada também não é nenhuma novidade nas produções brasileiras.

De fato, não é. A televisão nacional tem por um de seus grandes produtos a telenovela, costumeiramente tido como o formato televisivo brasileiro por excelência. E apesar do enorme preconceito que ainda existe em torno delas, é inegável que as telenovelas brasileiras são referência mundial, sendo enquadradas inclusive como produtos de exportação. Mas retornemos a elas mais adiante.

Na semana passada falamos sobre o boom das séries no Brasil (clique aqui), mas agora precisamos falar sobre a influência das produções norte-americanas nas produções nacionais.

Imagem: Publicitário Geek

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Não levem de modo algum essa troca de figurinhas como algo pejorativo. O brasileiro foi há muito diagnosticado por Nelson Rodrigues com o complexo do vira-lata e acaba por defender com toda a certeza que lhe cabe que esse fluxo do atual fazer televisivo não passa de um tentativa de cópia mal acabada das produções gringas. Estúpido engano.

O marasmo das telenovelas

Já há alguns anos as emissoras vêm sofrendo para segurar a audiência de suas telenovelas. Não por falta de qualidade técnica, tendo em vista, por exemplo as produções da Rede Globo de Televisão, nem por variação temática, posto o sucesso de público de Os Dez Mandamentos da Record, mas por falta de envolvimento do público. O espectador quer se ver, de alguma forma, naquela história, naquela personagem. Não há mais espaço para o Leblon de Manoel Carlos ou qualquer coisa que o valha. O espectador quer se ver ao ver o ficcional, por mais plural que essa massa de espectadores seja, afinal a telenovela é assistida pela avó do interior e pelo jovem urbano, por muitos. E algumas telenovelas que se enveredaram por esses caminhos conseguiram o feito de atrair um vasto público. Lembrem-se, pois, do fenômeno que foi Avenida Brasil.

A conectividade e o streaming

Sem dúvidas, a facilidade do intercâmbio de dados e informações aliada ao advento das plataformas streaming, tais quais Netflix, Hulu e HBO Go, proporcionou ao espectador uma gama enorme de conteúdo, tornando a audiência um fator muito mais dissipado e exigente.

Afinal de contas, qual é essa influência?

A influência da televisão norte-americana nas produções nacionais pode ser percebida nas tramas que viraram verdadeiros emaranhados, nos arcos narrativos que passaram a se desenrolar em camadas, nos personagens que se tornaram extremamente complexos e humanizados, pondo o maniqueísmo de lado, na preocupação com uma finalização melhor executada, no apreço por um desenho de som, na experimentação de novas estruturas para se contar uma história. Está em um uso mais consciente e artístico da linguagem audiovisual.

A influência está na ousadia em tratar mais abertamente de tabus ainda muito fortes na sociedade, de liberdade sexual, da violência não romantizada e da maior presença de uma representatividade. A televisão vem se reinventando, tendo incorporado aspectos de linguagem, estilística e estética de outros meios audiovisuais (cinema, vídeo e internet) e entrou na era da complexidade narrativa. A televisão brasileira não está de fora, ainda que esteja caminhadno a largos passos, ainda muito arraigada a sua herança – e presente – tradicionalista e normatizador.

Imagem: Geeksaw

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Aposta nas minisséries e outros formatos seriados como experimentação

Por suposto, as minisséries, as próprias séries e seriados e as novelas das 23h (no caso da Rede Globo) não surgiram anteontem por aqui. Porém, se as novelas já são formatos consolidados dentro da televisão brasileira, a saída foi explorar mais esses outros formatos e experimentar dentro deles, buscando justamente uma retomada de público. E na mesma mão das tendências televisivas dos EUA, da França e de outros países da América Latina, passou-se a investir pesado em conteúdo seriado aqui no Brasil. E aí veio uma leva de qualidade técnica e artística considerável, tanto nos canais abertos quanto nos fechados.

Mas sejamos realistas…

E tenhamos duas coisas em mente. A primeira delas é que essas inovações televisivas não atingem sequer um terço da população brasileira, posto a pífia porcentagem de lares com acesso a TV a cabo e até mesmo internet, quiçá a serviços de streaming. Os consumidores de conteúdo audiovisual “de qualidade” vivem em uma bolha muito distante do mostrado pelos índices. A maior parte dos lares do país estão restritos ao feijão com arroz do audiovisual.

Além disso, temos muito ainda o que caminhar e aprimorar. Tive um professor na faculdade, apreciador e estudioso da narrativa seriada e com quem dialogo sobre, que costuma dizer o seguinte em suas análises dos conteúdos nacionais: “Estamos bem próximos. A técnica nós temos. Isso nós já dominamos. Mas ainda nos faltam som, direção e, sobretudo, texto. Ainda estamos muito agarrados à escola dos dramaturgos e suas telenovelas.” Sou obrigada a concordar.

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

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