Sense8: sem arriscar, especial traz o melhor da série

Sense8

Um ano e meio depois da estreia da primeira temporada, Sense8 retorna para um breve abraço, um aceno aos fãs. É assim que o Especial de Natal deve ser encarado. Ainda que o saldo seja positivo e o capítulo seja bom, as duas horas lançadas não avançam em nada a trama central da série. Como desenvolvimento dos personagens, contudo, os roteiristas miram no futuro e promovem mudanças para alguns, embora outros fiquem no mesmo lugar em que começaram.

Lito talvez seja o que mais tenha mudado. Com uma foto íntima vazada, o ator assume a homossexualidade e sua vida dá uma guinada importante. De resto, as Wachowski e sua turma pouco arriscam: não há mudança significativa e a impressão que fica é que a intenção era fazer um capítulo independente, que pode ficar de fora da mitologia do programa.

Não que isso seja ruim: revisitar aquele universo e acompanhar os personagens é ótimo, mas quem espera grandes revelações ou reviravoltas, vai ficar desapontado. O Especial de Natal faz muito bem aquilo que deveria fazer: aquecer os corações dos fãs. Com isso, temos ótimas sequências com grandes hits, diversas interações entre os sensates e, claro, sexo (uma sequência bem mais bonita e sensual do que a famosa cena da banheira). Nesta perspectiva, Sense8 mantém o que era bom e melhora alguns aspectos. A química entre os sensates está impecável, melhor do que nunca, e devemos incluir os membros do grupo que não se conectam, como Hernando, Daniela e Amanita. As interações entre eles acontecem de forma ainda mais fluida e o trabalho de edição nessas cenas é irretocável, nos mostrando, mais uma vez, a incrível logística e direção que os episódios da série demandam.

Dito isso, é preciso admitir que alguns problemas continuam os mesmos. Enquanto alguns dos sensates são envolventes e bem desenvolvidos, outros ficam relegados ao segundo plano. Kala segue na sombra dos companheiros e é jogada em uma trama tola envolvendo o marido (pênis quebrado, sério?). É uma pena, também, que Riley seja utilizada no roteiro mais como apoio para Will do que qualquer outra coisa. Assim, personagens aparentemente secundários roubam a cena: Hernando é mais interessante que alguns próprios sensates, Daniela é divertidíssima e Amanita faz a trama girar muito mais que Kala ou Riley.

sense-8-christmas-special-trailer.00-01-11-17.still002Essa falta de avanço, contudo, não importa se comparada ao fato humano, mais expressivo do que nunca neste Especial de Natal. Talvez com base na recepção dos fãs e críticas feitas pelos preconceituosos de plantão, J. Michael Straczynski e Lana Wachowski apostam em críticas fortes, bem mais explícitas que as da primeira temporada. Alguns momentos chegam a soar didáticos demais, tamanha a força dos sempre bem-vindos comentários sociais da série. As duas horas representam o que Sense8 é em síntese: uma história de amor no mais amplo sentido. Não percebemos mudanças quando amamos, é apenas depois de um tempo, e com o quadro geral analisado, que vemos o quanto mudamos depois de amar. E não me refiro ao amor entre casais, mas entre amigos, familiares e ao próximo, por mais desconhecido que este seja.

É bem verdade que o Especial poderia ser menor, ou dividido em duas partes. Pouca coisa ocorre na primeira hora, mas o resultado geral compensa. Sense8 é uma série sensível, de apostas a longo prazo, então é nos detalhes que estão as joias. A cena inicial, por exemplo, estabelece rapidamente e de forma orgânica como se encontram os personagens principais. A partir daí, é só amor envolvido, literalmente. Nomi segue como uma das melhores coisas da série, Sun parece bem mais encontrada agora do que na primeira temporada, Lito está em um de seus melhores momentos, Wolfgang segue na sua melhor mistura de humor e letargia e o novo Capheus parece muito mais conectado do que o anterior, revelando-se como uma ótima surpresa.

Até maio, sensates. E Feliz Ano Novo, porra!

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

5 comments

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    Diogo Azis 23 dezembro, 2016 at 14:18 Responder

    Falou tudo Matheus!! Poderia muito bem ser dividido em dois ou ter alguns minutos a menos. Ryle e Kala senão tivessem aparecidos não teriam feito falta. Adorei o novo Capheus. E meu amor por Amanita e Nomi só aumentou <3.

    Vem maio!!

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 23 dezembro, 2016 at 19:42 Responder

      Né? Achei muito longo, parecia que não tinha tanta coisa pra falar nesse tempo todo. Amanita e Hernando são mais sensates que Kala e Ryle. Eles já até participaram de suruba e a Kala não. hahahah

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    Arthur Barbosa 23 dezembro, 2016 at 17:54 Responder

    Oi Matheus! É sério que você gostou do novo Capheus? O anterior – apesar da cara de adolescente – tinha mais luz do que este. É óbvio que eu não posso me basear em apenas um episódio, mas o “novo” eu senti um pouco apagado! Enfim, a sutileza em explicar a presença do novato foi muito gracinha.

    O episódio foi um abraço bem gostoso! Alguém duvida de que a Netflix vai dominar o mundo? hahaha Abraços.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 23 dezembro, 2016 at 19:39 Responder

      Pior que gostei, Arthur! hahaha Eu achava que o outro ator estava sempre desconfortável na série, mesmo antes da polêmica com a Lana. É inegável que ele tinha carisma, mas acho que este pareceu mais entregue à proposta… não sei, talvez seja só impressão. Também achei muito legal a introdução… “Você tá com uma cara diferente!” rsrs

      Netflix não para… quando achamos que ela sossegou, tem série surpresa saindo. Abraço!

  3. Avatar
    Marina Furlani 5 janeiro, 2017 at 23:09 Responder

    Eu achei que desenvolveu bem os personagens, adicionou muita coisa, as cenas da Kala por exemplo foram muito boas, mostra como sense8 pode caminhar pelo drama, ação, comédia sem problema algum.
    Outro ponto importante é que jamais esse ep pode ser considerado apenas um especial, ele é mais o ep 1 e 2 antecipados do que qualquer outra coisa, porque?? Bom, tivemos explicações de como os sensates veem a Angelica se ela tá morta, vimos como a Kala tá lidando com o casamento, e pelo que eu entendi na hora que o Rajan quase foi embora eles transaram, vimos o inferno que o irmão da Sun tá causando pra ela, tivemos um vislumbre da vida pessoal do Whispers, entre milhares de outro momentos que são importantes e não podem passar batidos, na verdade, quem não ver esse episódio vai ficar bem perdido no 2×1.
    O novo Capheus parece que a personalidade no personagem não combina com o ator, mas não foi desastroso, ao final do episódio, apesar de achar bem estranho, ainda consegui amar o Capheus sem ficar pensando que mudou o ator e tals e me acostumei um pouco.
    A série trouxe o que tinha de melhor e conseguiu melhorar ainda mais, como a relação dos sensates que agora se consideram família, as trocas mais frequentes e mais confortáveis, interações maiores entre aqueles que não interagiram muito na season 1 como Kala e Sun por exemplo, uma suruba que mais parecia uma dança artística de tão maravilhosa e bem trabalhada que foi.. Enfim, eu ri, chorei, me emocionei e sorri durante o ep, e por isso amei demais.
    A única reclamação que tenho foi que no final na luta na neve vimos Sun e Wolfie batendo em caras diferentes na mesma cena, e por mais difícil que seja acreditar que cometeram um erro tão grotesco de edição, infelizmente, dada as regras sobre as conexões que aprendemos, esse erro foi real e bem triste, mas fora isso tudo foi perfeito.

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