Succession é “a série da atualidade” com 3ª temporada | Crítica

Succession
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Poucas coisas são tão prazerosas na ficção quanto perceber a construção minuciosa de uma história. Em uma mídia tão distinta como a televisão, onde a narrativa deve se desenvolver por semanas e meses, o planejamento é ainda mais notório. A 3ª temporada de Succession, neste sentido, dá uma aula de estrutura, antecipação e todos os artifícios que fazem um roteiro funcionar. E não só: o terceiro ano da série de Jesse Armstrong a consagra como um dos programas mais poderosos e bem feitos deste século.

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Desta forma, acompanhar Succession tem a mesma energia vibrante que tivemos ao assistir The Sopranos e Breaking Bad se transformarem em gigantes da TV. Ver a saga da família Roy é testemunhar o desenrolar de um dos grandes títulos da ficção recente. Vencedora do Emmy, abraçada pela crítica e admirada pelo público, Succession é o drama familiar da HBO que segue o abastado clã dos Roy. Liderados pelo patriarca, Logan, filhos e demais parentes disputam e se envolvem em uma trama para descobrir quem será o sucessor, o herdeiro do conglomerado midiático liderado pelo magnata.

A mistura perfeita de drama denso e comédia escrachada

Na 3ª temporada, depois de Kendall vir à público revelando supostos crimes de seu pai, a família está dividida. De um lado, Kendall parte em uma cruzada contra Logan. Do outro, o chefe da família se cerca dos demais filhos e tenta se blindar. Com família e empresa desestabilizados, há sangue na água, e os tubarões estão por perto. Surgem as possibilidades de parceira e até mesmo de venda. O poder dos Roy está abalado.

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Succession funciona em grande parte por estar em uma zona cinzenta entre a tragédia grega e a comédia escrachada. É neste terreno perigoso, em que pouquíssimos sabem trabalhar, que a série de Armstrong cresce e se diferencia. Ao se enxergar como um drama shakespereano, sem jamais deixar o humor de lado, Succession acaba sendo o melhor drama e a melhor comédia da atualidade. E os resultados são elogiáveis justamente porque equipe e elenco se entregam por inteiro a qualquer variação dramática ou cômica.

O Emmy de 2022 já tem dono(s)

Não é à toa, portanto, que um dos maiores plot twists da temporada de Succession envolva uma traição executada friamente por personagens totalmente cômicos. Desta forma, também, o terço final do último capítulo da temporada sintetiza tudo o que a série é. Note o peso dramático do encontro dos irmãos na viela italiana. Ali, Kendall se despedaça e revela segredos sombrio. Os irmãos o apoiam e derramam algumas lágrimas. Roman, entretanto, é incapaz de suspender as brincadeiras, as piadas tolas, mas precisas, que ditam o ritmo de várias cenas do programa.

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Roman, aliás, é interpretado brilhantemente por Kieran Culkin nesta 3ª temporada. E dois momentos específicos devem lhe garantir o Emmy no ano que vem. O primeiro, é claro, vem da angustiante reunião onde o rapaz manda uma foto constrangedora ao pai. Percebendo o equívoco, Roman parece implodir e se desmanchar em si mesmo. O segundo é dentro do carro que o leva, ao lado dos irmãos, para a briga final com o patriarca. Entre decidir ficar ao lado do pai ou dos irmãos, Roman passa por intensos conflitos internos. E Culkin não decepciona através de expressões sutis, tanto de seu rosto quanto de seu corpo.

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Um dos melhores elencos da TV brilha do início ao fim

Mas não é só o caçula que brilha. Jeremy Strong novamente se entrega de corpo e alma a Kendall Roy em Succession, e os resultados são irrepreensíveis. Do topo de seu próprio mundo, Kendall cai violentamente na sarjeta do pior universo que se podia esperar: o de sua família. Acabado, o herdeiro original encontra-se em seu pior momento. Tendo a performance modulado com exatidão, entretanto, Strong brilha ao tirar Kendall – literalmente – do chão e colocá-lo na linha de frente da batalha. Perceba, portanto, como é ele que vai na frente dos irmãos, rumo ao confronto. Além disso, observe sua postura na sequência final, quando enfrentam o pai. Ironicamente, Kendall é o mais sóbrio e preciso da sala. Não há nada mais que o abale.

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O que nos traz, claro, à Shiv e sua incrível interprete, Sarah Snook. Tida como a mais valente e durona, Shiv se desconstruiu nesta 3ª temporada. De favorita ao posto principal da Waystar, Shiv viu o deprimente irmão mais novo se tornar o queridinho do pai. Aos poucos, ela percebe que o pai talvez seja, realmente o problema de tudo o que acontece com a família – e com as pessoas que os cercam. Seu desfecho, portanto, é um movimento natural, a saída de alguém que percebeu que só ganharia se jogasse sozinha ou ao lado dos irmãos.

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Planejamento e narrativa minuciosa elevam Succession ao panteão dos clássicos

Com este desenvolvimento dos irmãos Roy, portanto, temos uma das mais brilhantes construções e desenvolvimentos narrativos da TV recente. Um plot twist, por exemplo, não precisa ser surpreendente. Ele precisa, entretanto, fazendo sentido e crescer sempre que pensamos em sua lógica. A traição da season finale, por exemplo, é algo que se anunciou mais de uma vez nesta última temporada. Reveja o diálogo entre Tom e Greg, no meio da temporada, a respeito de Nero, sua esposa e uma terrível castração. Lembre-se ainda, dos donuts que Logan envia aos filhos quando estes se reúnem no início da temporada. Alguém avisou Logan, e esta pessoa foi a mesma que amarrou a última ponta de traição no último episódio.

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Succession, aliás, é repleta destas belas rimas visuais e narrativas. No sétimo capítulo, por exemplo, quando Roman pede para Kendall lhe dar um soco, sabemos que o irmão mais velho não fará isso. Isso porque na segunda temporada, quando Logan bate em Roman, Kendall é o primeiro e único a defender o caçula contra a fúria descontrolada do patriarca. Entre as piadas e os venenos, há amor entre os membros do clã Roy. E é justamente por isso que é doloroso ver Logan, na season finale, recusar clemência logo quando seus filhos lhe pedem a única coisa que ele não conhece, não tem e não pode dar – ou vender: amor.

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HBO segue como o melhor canal – e o melhor formato – da televisão

Depois de nove episódios sólidos, Succession chega a um desfecho irretocável. A qualidade se constata quando vemos que o final é arrebatador e único, mas também soa como a única forma de acabar. Nos últimos meses, aliás, Succession e a HBO comprovaram, de uma vez por todas, como o formato de lançamento semanal é o melhor jeito de se distribuir séries de TV. Ainda que as maratonas sejam divertidas, nada gera engajamento como a boa e velha estrutura semanal. Há mais de dois meses comentamos e consumimos Succession em uma espiral de empolgação e engajamento. Neste mesmo período, uma porção de séries foram lançadas em alguns streaming e já foram totalmente esquecidas por público e crítica.

Preparando o terreno para a – desde já – aguardada 4ª temporada, Succession se despede como a produção mais sólida do momento. Consagrada já em tão tenra idade, a série da HBO entra no panteão das grandes. Está bem acompanhada, ao lado de A Sete Palmos, Breaking Bad, The Sopranos, The Wire, Mad Men, Lost e tantas outras.