A primeira temporada de Sugar dividiu o público como poucas séries recentes conseguiram fazer. Durante boa parte da narrativa, a produção parecia um elegante thriller noir protagonizado por um detetive particular carismático. Então veio a reviravolta envolvendo a verdadeira origem de John Sugar, transformando completamente a percepção da série.
Para alguns, foi uma jogada ousada. Para outros, um exagero que quase destruiu tudo o que havia sido construído. A boa notícia é que a segunda temporada parece ter aprendido com essa reação.
A série finalmente entende o que faz Sugar funcionar
Logo nos primeiros episódios da 2ª temporada fica evidente que os criadores sabem onde está o verdadeiro interesse do público. Embora os elementos extraterrestres continuem presentes, eles deixam de ocupar o centro da narrativa. Em vez disso, a temporada investe no que sempre foi o grande diferencial da série: o próprio John Sugar.
Agora isolado, lidando com a ausência de pessoas importantes e tentando encontrar respostas sobre Djen, o personagem atravessa uma jornada muito mais emocional do que a investigação principal.
Existe um caso de desaparecimento para resolver, claro. No entanto, o que realmente move a trama é a solidão de Sugar e sua busca constante por conexão em um mundo onde ele nunca se sentiu completamente pertencente.
Colin Farrell continua carregando a série nas costas
Se Sugar ainda funciona depois de uma reviravolta tão arriscada na temporada anterior, muito disso se deve a Colin Farrell. O ator entrega mais uma vez uma atuação impressionante, equilibrando charme, vulnerabilidade e melancolia.
John Sugar continua sendo um protagonista fascinante justamente por suas contradições. Ele consegue compreender as emoções de qualquer pessoa que encontra pelo caminho, mas frequentemente não entende os próprios sentimentos.
Essa fragilidade torna o personagem muito mais interessante do que a maioria dos detetives tradicionais do gênero. Em diversos momentos, a série deixa claro que sua verdadeira força não está na ficção científica ou nas conspirações, mas na humanidade de alguém que sequer é humano.

A atmosfera continua sendo um espetáculo
Poucas séries atuais possuem uma identidade visual tão forte quanto Sugar. A mistura entre o noir clássico e a Los Angeles ensolarada continua funcionando perfeitamente. Existe uma beleza quase hipnótica na forma como a série apresenta corrupção, violência e decadência escondidas atrás de cenários luxuosos.
A fotografia segue impecável e a trilha sonora ajuda a construir um clima constante de mistério e inquietação. Mesmo quando a narrativa desacelera, é difícil não se deixar envolver pelo ambiente criado pela produção.
O maior problema da temporada continua existindo
Entretanto, nem tudo funciona na segunda temporada de Sugar e precisamos ser críticos. Assim como aconteceu no primeiro ano, a segunda temporada sofre com um ritmo irregular. Existem episódios inteiros que parecem girar em torno da própria atmosfera sem realmente fazer a história avançar.
Além disso, a investigação principal acaba seguindo caminhos relativamente previsíveis para quem acompanha thrillers policiais com frequência. A conspiração apresentada é interessante, mas dificilmente surpreende. Em alguns momentos, a sensação é que a série está mais preocupada em parecer sofisticada do que em desenvolver sua trama de forma mais dinâmica.

Uma continuação melhor do que muitos esperavam
O grande mérito da segunda temporada é perceber que Sugar não precisava se transformar em uma série de ficção científica. Ao reduzir a dependência da grande revelação do primeiro ano e voltar suas atenções para John Sugar, a produção encontra uma identidade muito mais sólida.
Ainda existem problemas de ritmo e a investigação está longe de ser revolucionária. Mesmo assim, a combinação entre a atuação de Colin Farrell, a estética noir e os conflitos emocionais do protagonista tornam a experiência bastante envolvente.
No fim das contas, Sugar acerta justamente quando para de tentar impressionar o público com reviravoltas e passa a confiar no personagem que sempre foi sua maior qualidade. E isso faz desta segunda temporada uma continuação mais madura, mais segura e, principalmente, muito mais interessante do que muitos imaginavam.


