The Leftovers – 3×05 – It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World

Imagem: HBO/Divulgação

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“Sou a única esperança. A única defesa de uma espécie à beira da extinção. Os demonistas nos alertaram… sábios videntes da verdade. Disseram que a criatura viria sete anos antes que os primeiros fossem levados, sete anos antes da partida. Mas estávamos cegos, Deus. Estávamos cegos diante daquilo que não queríamos ver. Agora estamos à beira do precipício da destruição. O nascimento desse monstro é o nosso fim pois ele é o fim da humanidade com suas sete cabeças e sete línguas de fogo. Nossa única esperança. O ovo, eu o encontrei com o mapa do demonista, escondido em seu ninho, um vulcão no mar. Obrigado Deus, pela tecnologia. Por arrogância, criamos uma arma para acabar com todas as armas. A bomba nuclear. Mas esta força pode ser nossa salvação, ela pode quebrar a casca e matar o demônio. Deus, que esse míssil voe certeiro, encontre o ninho no vulcão e destrua o ovo antes do nascer da besta que se levantará para destruir o mundo.”

Eu não acho que tenha dito isso antes, mas é hora de dizer: The Leftovers é estranha pra p*&@#. No episódio dessa semana, tivemos um francês pelado enlouquecendo e lançando uma bomba nuclear, um navio cheio de pessoas que transam loucamente para adorar um leão e um cara que distribui cartões clamando ser Deus. Mas apesar de toda essa insanidade, o foco cai sobre Matt e as constantes provações e humilhações que o personagem passa em nome da fé.

Matt é a maior representação da espiritualidade na balança que é The Leftovers. A série nunca pende para o ceticismo ou a religiosidade, ao invés disso transita entre os dois simultaneamente. Em contrapartida ao caráter mais pé-no-chão de Nora, seu irmão representa todos aqueles que buscam nas adversidades da vida um sentido para as coisas. Mas nesse episódio, Matt parece ter tomado um banho de água fria para com a sua fé cega.

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A fala medonha e apocalíptica da abertura já dava uma pista bem clara de que a peça central da semana seria o padre “perturbado”. Perturbado porque, aparentemente nesse mundo, ele nunca consegue ter um descanso, e as suas crenças estão constantemente sendo colocadas em xeque para expor sua persona. Matt acredita em Deus piamente, e Ele parece estar o testando o tempo todo; ou talvez os “testes” nada mais sejam que as diversas desventuras inevitáveis da vida.

O padre encontrou em Jarden um refúgio, assim como Nora pensou ter encontrado, mas, para ele, a cidade é realmente milagrosa. Ele sempre faz questão de lembrar tudo de bom que aconteceu em sua vida enquanto estava lá, mas como disse John, coisas ruins aconteceram nela também, coisas das quais Matt não pondera. O personagem está realmente convicto no poder de Jarden e acredita que tem que levar Kevin de volta antes do aniversário de sete anos da Partida Repentina, ou algo ruim poderá acontecer. Ele então convida John e Michael para irem juntos resgatar Kevin na Austrália; o trio envolvido no Evangelho de Kevin. Mas outra pessoa também vai: Laurie, e aí que o clima antagônico entre ela e Matt ganha altos níveis.

Imagem: HBO/Divulgação

Matt e Laurie formaram uma dupla interessante e nova nessa reta da temporada. Eles não tiveram muito contato ao longo do tempo e colocá-los frente a frente foi bem pensado. Há um conflito de pensamento entre os dois, algo que não tinha ganhado muita vida anteriormente, mas que aflorou nesse episódio. Laurie acha que Matt está fazendo mal a Kevin o expondo a todas essas teorias divinas, Matt acha que Laurie não vê que Kevin pode realmente ser um messias.

Apesar dos protestos, Laurie vai junto. No meio do caminho, o quarteto precisa pegar um navio para Melbourne que está ocupado pelos integrantes de um culto que adora, através do sexo, um leão chamado Frasier. Na embarcação, um de seus descendentes estava sendo levado. Ver a figura do padre exposta a um navio cheio de sexo, que constantemente é atribuído ao pecado, cria um contraste interessante e até mesmo um viés cômico. Porém, o navio e seus integrantes são mais pano de fundo para a história do que de fato peças essenciais. Talvez o elemento mais importante no navio seja um homem de boné vermelho que lê um livro em um canto e diz ser Deus. Aquilo revolta Matt com tamanha blasfêmia.

Não se pode ignorar o quanto a fé do personagem o tem colocado em diversos tipos de situações degradantes. Ainda na primeira temporada, ele tenta arrecadar dinheiro para a Igreja numa busca frenética em um cassino, na segunda temporada sua mulher paralisada volta ao normal por uma noite e ele a engravida, só para depois ela voltar ao estado de antes.

No começo da terceira temporada, ela, já curada e com o filho, vai embora pois Matt a estava enlouquecendo com sua devoção exagerada. No meio do caminho ele foi agredido, insultado, exposto e humilhado. Colocando as coisas desse jeito, parece alguma escritura bíblica em que um fiel convicto perde tudo e todos, mas no final é recompensado por Deus. O problema é que Matt nunca é recompensado por Deus, e nesse episódio o padre teve a oportunidade de perguntar para Deus em carne e osso o por quê.

O diálogo com o homem de boné vermelho, que é revelado ser David Burton – um ex atleta que morreu em um acidente em uma escalada e voltou a vida -, é o momento decisivo e o clímax do episódio. A conversa começa pela descrença de Matt em acreditar que aquele homem é de fato Deus, e vai ganhando outras formas. O homem mantém a calma a não fala nada que possa desmentir ou atestar sua identidade. Em determinado momento, Matt assume que aquele poderia ser Deus e resolve dizer tudo que queria dizer. Ele revela o que está sentindo e se pergunta por que tantas coisas acontecem em sua vida. Matt queria ser ouvido por Deus, ele queria atenção, e aquele homem, por mais que fosse uma fraude, era o único que estava lhe dando atenção no momento. Descobrimos que sua leucemia voltou e então o homem de boné diz que pode curá-lo novamente. Ele estala os dedos como num passe de mágica e diz “Pronto, você está curado”. Nesse momento, o personagem cai em si e percebe o quão ridícula era aquela situação toda. Nesse instante, Matt foi curado, não de sua doença, mas da fé cega. Toda a urgência em trazer Kevin para casa se esvai, ele vai da pessoa mais devota a uma quase indiferente. Matt aceita que algumas coisas simplesmente acontecem e que nem tudo está no controle. Ele diz para John, Michael e Laurie que está morrendo e isso revela sua aceitação.

No fim, “Deus”, o mesmo que ajudou Daniel na cova dos leões, encontra seu fim sendo atacado pelo leão descendente de Frasier. Irônico… E Matt observa calmamente e diz aos seus companheiros de viajem, “Esse é o cara do qual eu estava falando”. Tem como não amar The Leftovers?

P.S.: Poxa, não mencionei nenhuma vez a atuação de Christopher Eccleston, que feio. Eccleston deu um show, principalmente levando em consideração a mudança que houve em Matt ao longo do episódio.

P.S. 2: A história de Frasier é real. Na década de 70, Frasier já era um leão idoso e fora dispensado por um circo, logo depois, o leão foi levado para um reservatório que continha várias fêmeas. As leoas rejeitavam todos os machos, se recusando a acasalar, mas quando o leão maltrapilho chegou, ele acasalou com todas elas e gerou uma prole de mais de 30 filhotes. Frasier, desde então, começou a ser usado como ícone por diversos senhores que viam nele uma inspiração.

P.S. 3: Esqueci de mencionar que a explosão atômica foi a causa do cancelamento dos vôos no último episódio.

P.S. 4: Pesquisando um pouco sobre David Burton, lembrei que ele esteve no hotel dos mortos com Kevin na segunda temporada.

P.S. 5: O título do episódio é uma referência ao filme It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World (Deu a Louca no Mundo) que conta a história de um grupo de pessoas em uma corrida para achar um tesouro escondido. Não, não é aquele filme da Sessão da Tarde com o Cuba Gooding Jr. e o Rowan Atkinson.