True Blood – 07×10 – Thank You (Series finale)

mix.trueblood.final

E True Blood chegou ao fim. Não da forma como gostaria, é verdade, mas também não foi o fiasco que poderia ter sido. Num misto de decepção e tristeza pela despedida, a série terminou com um episódio irregular, mas que amarrou todas as pontas que deveria dar conta. O grande problema do capítulo final é a sensação de que ele foi feito com pouco esmero em termos de roteiro. É nítida a impressão de que nada visto nesta hora final foi previamente planejado e estudado. As resoluções vistas aqui parecem, portanto, apenas uma consequência inevitável dos grandes erros que a equipe responsável por True Blood cometeu. Alan Ball, o criador do programa, disse em entrevistas que o encerramento de Six Feet Under, sua primeira série, fora planejado ainda nas temporadas iniciais. Vince Gilligan afirmou que muito do que se viu no final de Breaking Bad, sua criação, não fora planejado com muita antecedência, mas que o principal já havia sido pensado. Não é o que parece ter acontecido com True Blood. É difícil pensar que finais tão abruptos e mal construídos como os de Sam, Tara, Alcide e Lafayette, personagens importantíssimos, foram planejados com cuidado. Parece que faltou tempo, faltou respeito com o material que tinham em mãos.

A pressa em finalizar tramas, por exemplo, é assustadora. Bill decidiu morrer e em uma conversa com Jessica, sua cria, sua “filha”, o vampiro afirma que não teve oportunidade de levar sua primeira e autêntica filha ao altar, pois à época já havia sido transformado. Tocada, Jessica resolve se casar com Hoyt. Sim, aquele personagem jogado às traças em temporadas anteriores e que só voltou para terminar com a ruiva. Sim, pois essa é sua função: aparecer e viver feliz para sempre – ou quase – com a Eterna Virgem Jessica. Em um dia, o pessoal reúne os amigos, chama o xerife para fazer papel de padre e montam um casório. Bem ao estilo novela das nove da Rede Globo. Outra trama ridiculamente encerrada é a da gangue que sequestrou Sarah Newlin para extrair e sintetizar seu sangue. Os orientais passaram a temporada inteira como grandes ameaças. Até Eric, que não tinha medo de muita coisa, temia o grupo. Todos tinham medo do que poderia acontecer caso alguém descobrisse o valor de Newlin. Eis, então, que toda a gangue é exterminada por Eric e Pam em questão de minutos, antes mesmo de chegarmos à metade do capítulo. A pergunta é: por que não mataram os infelizes antes? Pra que todo o medo? Todo o vai e vem? Todo o tempo gasto para, no fim, nenhuma cena de ação ou momento antológico ser criado.

O pior dessa lambança toda é que este é praticamente o fim de Eric. O vampiro, um dos três personagens principais de toda a história, não aparece dignamente depois disso. É verdade que seu destino é interessante e o fim de seu arco narrativo é curioso, mas o personagem merecia coisa melhor. Outro ponto que me incomoda é a inserção da namorada de Hoyt que, assim como o parceiro, chega à temporada final apenas para ficar com um personagem central. Brigette, ainda que simpática, é praticamente inútil, sendo criada apenas para ficar com Jason.

Continua após a publicidade

Mas nem todos os finais foram ruins. A conclusão entre Sookie e Bill foi satisfatória. Muitos criticam o fim dado ao vampiro e as cenas finais entre o casal, mas enxergo os momentos finais entre os dois como a melhor coisa do episódio. O fato de Sookie poder, enfim, ouvir os pensamentos de Bill, provando, assim, que ele realmente estava morrendo e, finalmente, se tornando humano, é uma ótima sacada. Os instantes finais, principalmente a cena derradeira no cemitério, são os únicos minimamente emocionantes do episódio, com cara de despedida. Durante a última conversa, por exemplo, percebemos o quão importantes foram um para o outro e como a série, em geral, tinha Sookie e Bill como personagens principais. True Blood começou com os dois, nada mais adequado que terminasse com os mesmos, numa bonita cena. A morte de Bill, aliás, é um momento bem construído pelo diretor Scott Winant. Até o último momento o espectador fica esperando que os dois voltem atrás e que Compton não morra. Eis, então, que a estaca perfura o peito do vampiro que explode como todos os outros, deixando Sookie coberta de sangue. É interessante que a última vez que a fada se envolve com o sobrenatural (ao menos dentro da série) e a última vez que o sangue cobre sua pele (depois de tantas vezes envolta em mistério e perigo) seja justamente junto a Bill. Depois que o vampiro finalmente morre, um silêncio toma conta e vemos Sookie ajoelhada na cova, chorando. É uma bela sequência que termina com a fada caminhando de volta à sua casa; um caminho percorrido tantas vezes durante os sete anos da série.

mix.true

É então que True Blood volta à sua realidade e as coisas ficam estranhas novamente. Vemos que Eric e Pam estão fazendo um bom dinheiro com o New Blood, uma nova bebida sintética criada a partir do sangue de Sarah Newlin. Depois desta sequência (que conta com a participação ligeira de Charlaine Harris, a autora dos livros que deram origem ao programa) vemos Newlin refém, presa no calabouço do Fangtasia, servindo de jantar para vampiros que podem pagar o alto preço cobrado por Pam. É a última cena de Pam, a favorita de muitos fãs. Em seguida, vemos Eric sentado em seu trono no Fangtasia, aquele mesmo do início. E é por isso que comentei anteriormente que o arco dramático percorrido por Eric é interessante. O vampiro começou no bar, ao lado da parceira Pam, e terminou ali. Isso não muda todo o caminho percorrido por ele até aqui. Ainda que tenha mais de 1000 anos, conhecer Sookie e passar por tudo que vimos na série mudou o sujeito. E a prova disso é a expressão fechada e contemplativa do personagem em sua cena final.

True Blood acaba então com a cena de um jantar. Todos os principais personagens estão lá, incluindo Lafayette, que fora completamente ignorado durante todo o episódio. Todos parecem felizes e acompanhados. Nenhum casal parece ter se separado e todos riem e desfrutam do banquete. São os segundos finais da série e Sookie tem um futuro incerto. Ela aparece grávida, mas não sabemos quem é o pai. Nos segundos finais descobrimos, enfim, que Sookie termina sua história com um desconhecido do público, um homem qualquer. Assim, ela acaba tendo a vida normal que gostaria, com marido e filhos.

Para encerrar, gostaria de comentar apenas o fato de Sookie não terminar nem com Bill nem com Eric. Todos esperavam que a fada terminasse com um ou outro, já que isso é normal dentro de romances em que uma personagem fica dividida entre dois amores. Criou-se em todos esses anos o “team Bill” e o “team Eric”. Vários torciam para que Sookie acabasse com Compton, seu primeiro amor, e vários outros por Eric, por quem a fada teve uma paixão avassaladora. No fim, Stackhouse fica com um sujeito desconhecido do público, completamente aleatório. E isso é bom por vários motivos, ainda que tenha levantado polêmica e despertado a ira de inúmeros fãs. Pensemos: se Sookie ficasse com Bill, mais da metade dos fãs odiariam o final, pois torciam por Eric. Do contrário, outra metade ficaria insatisfeita, pois queriam ver Compton conquistando o coração da loira. É claro que a protagonista ficar com um desconhecido é um tanto decepcionante e anticlimático, mas foi a forma que os escritores acharam para agradar a todos, mesmo que, sem querer, acabe desagradando a maioria.

Enfim, agradeço a todos que acompanharam as reviews de True Blood aqui no site. O final da polêmica série pode não ter sido perfeito, mas não me arrependo de ter acompanhado essa história durante todos esses anos. Nossa relação com True Blood foi cheia de altos e baixos e o final agridoce. Mas qual relação não é assim?

P.S.: Toda series finale precisa de uma boa música para representá-la. Grandes séries tiveram grandes músicas tocando em seus minutos finais. Six Feet Under teve Breath Me, da Sia; The Sopranos teve Don’t Stop Believing, do Journey; Breaking Bad contou com Baby Blue, da Badfinger. True Blood não ficou atrás e a música que toca no encerramento é Thank You, do Led Zeppelin. Fantástica!

Tags True Blood
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

No comments

Add yours