#TVsowhite – Como a televisão entra neste debate?

O cinema tem se ancorado em uma intensa discussão nos últimos dias. Após as indicações ao Oscar serem divulgadas, cresceu na indústria um forte debate acerca da representatividade das minorias dentro da Academia e o reconhecimento da premiação para com estas mesmas minorias. Nos tempos conectados em que vivemos, não tardou para uma hashtag fazer sucesso no Twitter: #Oscarsowhite. O termo escancarava uma vergonha: nas principais categorias do Oscar, nenhum negro (ou latino, ou asiático, etc.) fora indicado. Das vinte vagas de atores e atrizes, vinte foram preenchidas por brancos.

A constatação é simples: a Academia é racista? Talvez sim; talvez não. A questão não é esta. O problema é que a Academia pode não ser racista, mas é formada basicamente por homens brancos com idades avançadas. Não podemos e não devemos afirmar que estas pessoas são preconceituosas, o problema é que nunca teremos pluralidade em indicações tendo um grupo tão fechado de votantes. Há poucas mulheres, poucos negros, poucos latinos, poucos asiáticos, etc. Só que a questão não para aí. Antes de jogar toda a culpa na Academia e boicotar o evento, pense primeiro em boicotar o próprio cinema. A indústria inteira está em um mau caminho. Perto dos homens, há pouquíssimas mulheres diretoras; entre os filmes, poucos são aqueles protagonizados exclusivamente por mulheres, ou que tenham mulheres no centro de tudo. Poucos são aqueles, também, que tenham alguma minoria em seu cerne.

Como Viola Davis brilhantemente resumiu em seu discurso no Emmy, não se pode premiar um artista por papeis que não estão lá. Se não há a oportunidade, não há a chance de aparecer. É claro que este ano, no cinema, alguns artistas se sobressaíram e mereciam uma indicação ao Oscar. Idris Elba, por exemplo, merecia uma lembrança por Beasts of no Nation, mas ficou de fora. Este sim, um erro da Academia. Nas categorias principais, nenhum chegou perto, e não por culpa da Academia, mas porque não foram produzidos filmes onde minorias puderam brilhar. A indústria dá muita atenção para brancos heterossexuais e, de preferência, em boas condições financeiras. Creed e Straight Outta Compton, ancorados em personagens negros, e Carol, sobre um romance entre duas mulheres, são infinitamente superiores a Brooklyn, por exemplo, que acompanha uma garota branca que sai da Irlanda e tenta a sorte nos Estados Unidos. Ainda que tente prestar reconhecimento aos imigrantes, acaba caindo no velho chavão da “América redentora e acolhedora – e branca, claro”.

Continua após a publicidade

E na TV?

editorial03

Não podemos dizer que a situação da televisão é perfeita, mas vai muito melhor que a do cinema. No nosso querido universo televisivo, a representatividade vai crescendo cada vez mais. É claro que ainda estamos longe de um equilíbrio ideal, mas a TV tem ensinado boas maneiras à indústria cinematográfica. Se os produtores da tela grande têm medo de investir em filmes protagonizados por negros (eles alegam que não há público para estas produções), o mesmo não pode ser dito sobre os produtores da telinha. Temos bons programas que trazem minorias como ponto central, usando-as como foco principal, e não como muletas. Aos poucos, as séries abandonam a ideia do “melhor amigo gay” para dar o papel principal ao gay. A mulher deixa de ser a parceira do protagonista investigador para ser a detetive do seu próprio programa. A família negra deixa de ser a coadjuvante ou o motivo de piada para os brancos para liderar as próprias histórias. São avanços que parecem distantes ou muito fracos no cinema.

Analisemos o Emmy, por um momento. Na categoria de Melhor Série – Comédia, Transparent fez bonito ao trazer a história de um pai de família que resolve viver como sempre quis: como mulher. Os votantes reconheceram e nomearam o programa. Ainda assim, Jane the Virgin e Black-ish ficaram de fora, diminuindo a representatividade dos latinos e dos negros na categoria. Na categoria de Melhor Série – Drama, o ponto a favor fica com a indicação para Orange is the new Black, programa quase que inteiramente protagonizado por mulheres de diversas etnias. É bom, mas ainda é pouco, principalmente ao vermos que os demais indicados são produzidos e protagonizados por uma maioria branca.

Entre os atores, a pluralidade do Emmy faz o Oscar passar vergonha: David Oyelowo, Queen Latifah, Anthony Anderson, Don Cheadle, Taraji P.Henson, Viola Davis, Regina King, Mo’Nique, Angela Bassett, Andre Braugher, Keegan-Michael Key, Tituss Burgess, Niecy Nash, Uzo Aduba, Reg E. Cathey, Cicely Tyson, Khandi Alexander e Michael Kenneth Williams. Todos indicados nas principais categorias de atuação. Em algumas categorias, de seis indicados, três eram negros. Alguns pontos saltam aos olhos: a diversificação é maior entre as mulheres do que entre os homens (categorias ainda dominadas por atores brancos) e a pluralidade é maior entre os coadjuvantes, o que aponta que os papeis principais ainda não estão sendo oferecidos de forma ampla e justa e que as minorias seguem com papeis secundários. Das 16 categorias de atuação, 4 foram vencidas por negros, 3 destas para mulheres. Não é muito, mas os seriadores podem ficar orgulhosos da TV.

Nos bastidores, a indústria televisiva também parece mais favorável. Se no cinema as mulheres raramente comandam projetos, na TV algumas têm espaço. E digo “algumas” porque deveria ser muito mais. Shonda Rhimes é um dos maiores e melhores exemplos que a mulher pode ter nos bastidores da TV. Na direção, várias mulheres merecem respeito pelo excelente trabalho. Michele McLaren, Lesli Linka Glatter, Mimi Leder, Patty Jenkins, Jodie Foster são apenas algumas das várias diretoras que brilham no comando de vários episódios televisivos. Muitas já foram indicadas ao Emmy e também nos entregaram capítulos memoráveis. McLaren é responsável por alguns dos melhores episódios de Breaking Bad, Glatter dirigiu vários dos melhores capítulos de Homeland e diversos episódios de séries de sucesso de crítica e público; Leder é um dos principais nomes por trás de The Leftovers,um dos melhores programas de 2015. O talento está lá fora, basta reconhecê-lo.

Em minha mente eu vejo uma linha. Nesta linha, vejo campos verdes, flores lindas e belas mulheres brancas com seus braços esticados para mim, para fora da linha. Mas eu não consigo chegar lá, não vejo como. Eu não consigo passar desta linha. Isso foi [dito] por Harriet Tubman em 1800. E deixe-me dizer um coisa: a única coisa que separa as mulheres de cor de qualquer outra pessoa são as oportunidades.
Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não estão lá. Então aqui está, para todos os roteiristas, as pessoas fantásticas que são Ben Sherwood, Paul Lee, Peter Nowalk, Shonda Rhimes,que redefiniram o que significa ser bonito, ser sexy, ser uma mulher líder, ser negro. Para as Taraji P. Hensons, as Kerry Washingtons, as Halle Berrys, Nicole Beharies, Megan Goods, Gabrielle Unions: obrigado por nos levar além desta linha. Obrigado à Academia. Obrigado.
Viola Davis ao vencer o Emmy de Melhor Atriz – Drama por “How to get Away With Muder”
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

3 comments

Add yours
    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 31 janeiro, 2016 at 17:59 Responder

      Muito obrigado! 🙂 É realmente elogiável o que Shonda alcançou em uma indústria tão difícil e preconceituosa. Um exemplo, sem dúvida.

Post a new comment