Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out | O filme mais chato do ano

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é o filme mais chato do ano e prova que a fórmula se esgotou.

Há algo profundamente frustrante em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out. Não porque o filme seja escandaloso, ofensivo ou ousado demais, como algumas de suas imagens podem sugerir, mas porque ele é cansativo, arrastado e surpreendentemente sem vida. Para um longa que carrega a promessa de mistério, ironia e jogo de inteligência, o que Rian Johnson entrega aqui é um exercício de estilo vazio, que confunde provocação com profundidade e diálogo afiado com longos blocos de exposição.

O resultado é um whodunit que parece existir mais por obrigação de franquia do que por necessidade criativa.

Provocação sem energia narrativa

Desde as primeiras cenas, o filme da Netflix deixa claro que quer causar. Há imagens de profanação religiosa, discursos inflamados e símbolos católicos tratados de forma deliberadamente provocativa. Em teoria, isso deveria servir a um comentário mais amplo sobre hipocrisia, fé instrumentalizada e figuras públicas que exploram crenças para benefício próprio.

O problema é que essa provocação nunca se traduz em tensão dramática real. Johnson parece mais interessado em sorrir para a própria ousadia do que em desenvolver conflitos sólidos. O longa até tenta, em seu desfecho, resgatar valores como empatia, compaixão e perdão, localizando o divino nas relações humanas. Mas essa virada soa artificial, quase como um pedido de desculpas tardio, e entra em choque com o humor ácido que deveria sustentar o filme.

É como se Vivo ou Morto não soubesse exatamente que tipo de obra quer ser.

Benoit Blanc segue carismático, mas já não basta

Daniel Craig continua sendo o maior trunfo da franquia. Seu Benoit Blanc surge quase como uma entidade messiânica, uma resposta literal a uma oração dentro da narrativa. Visualmente, a comparação é óbvia: cabelos longos, barba, postura contemplativa. Dramaticamente, o personagem assume um papel quase pastoral, oferecendo compreensão até mesmo ao culpado.

Craig faz o que pode, e seu carisma ainda sustenta muitas cenas. Mas aqui fica claro algo que os filmes anteriores disfarçavam melhor: Benoit Blanc sozinho não carrega um filme inteiro. Quando o mistério não engaja e os personagens ao redor não ganham densidade, nem mesmo sua presença consegue evitar o tédio.

Vivo ou Morto traz um elenco desperdiçado

É impossível assistir a Vivo ou Morto sem sentir que há talento demais sendo subutilizado. Kerry Washington é, de longe, o nome mais magnético do elenco. Com olhar carregado, postura firme e uma aura constante de mistério, ela domina a tela sempre que aparece. Ainda assim, o roteiro lhe oferece muito pouco além da presença.

O mesmo vale para Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Andrew Scott, Glenn Close e Jeremy Renner. São atores experientes, com enorme potencial dramático, mas que parecem presos a arquétipos rasos. Não há espaço para que esses personagens se choquem, se provoquem ou se transformem de forma orgânica.



Andrew Scott até encontra alguns momentos de humor, Josh Brolin adiciona pequenas camadas ao que faz, e Glenn Close se diverte exagerando em certos trejeitos antes de partir para um drama mais emocional. Nada disso, porém, deixa marca. São atuações que passam sem eco, como se todos estivessem em filmes diferentes.

Personagens que não se conectam

O maior erro de Rian Johnson aqui está na dinâmica entre os personagens. Um bom whodunit vive do atrito: olhares cruzados, diálogos afiados, jogos de poder e segredos revelados aos poucos. Em Vivo ou Morto, isso simplesmente não acontece.

Os personagens parecem existir em isolamento, como se tivessem sido filmados separadamente e reunidos apenas na montagem. Falta química, falta conflito direto, falta sensação de grupo. Em vez de trocas vivas, o filme se apoia em explicações longas e mecânicas, transformando o diálogo em uma sucessão de despejos de informação.

É um mistério que explica demais e envolve de menos.

Reviravoltas que cansam

Rian Johnson sempre foi fã de reviravoltas, mas aqui elas surgem mais como obrigação do que como surpresa genuína. O roteiro se preocupa tanto em parecer inteligente que esquece de ser envolvente. Cada novo giro da trama soa previsível, não porque o público esteja um passo à frente, mas porque o filme insiste em um ritmo monótono.

Não há sensação de descoberta, apenas a impressão de que estamos esperando o próximo truque, já sabendo que ele virá acompanhado de mais explicações do que emoção.

Quando o desfecho chega e o filme tenta apostar em um tom mais sentimental, o efeito é quase o oposto do desejado. Em vez de tocar, soa como uma quebra abrupta de identidade, traindo o humor irreverente que deveria sustentar a experiência.

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é um mistério sem pulsação

Ao final, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out se revela um paradoxo curioso. É um filme cheio de símbolos, ideias e atores talentosos, mas completamente desprovido de energia narrativa. Os personagens funcionam como marionetes, o mistério se arrasta sem urgência e o texto, excessivamente explicativo, sufoca qualquer possibilidade de envolvimento emocional.

Rian Johnson pode até ter se divertido fazendo o filme, mas para quem assiste, a sensação predominante é de desgaste. O que deveria ser um jogo inteligente vira uma experiência repetitiva, estática e, em muitos momentos, entediante.

No fim das contas, o título alternativo que vem à mente não é gratuito: Vivo ou Morto parece um filme que já entra em cena sem pulso. Um mistério que não instiga, não surpreende e, principalmente, não empolga. Para uma franquia que nasceu como celebração do gênero, este terceiro capítulo soa como prova clara de que a fórmula, ao menos do jeito que está, já deu sinais evidentes de esgotamento.



Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out | O filme mais chato do ano
SOBRE O AUTOR
Matheus Pereira
Matheus Pereira é Jornalista e mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Escritor assíduo na época dos blogs, Matheus desenvolveu seus textos e conhecimentos em Cinema e TV numa experiência que já soma quase 15 anos. Destes, quase dez são dedicados ao Mix de Séries. Além disso, trabalha há mais de dez anos no campo da comunicação e marketing educacional, sendo assessor de imprensa e publicidade em grandes escolas e instituições de ensino.