Até o Último Homem é o retorno definitivo de Mel Gibson à boa forma

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Depois de conquistar o público como astro de cinema e ter o mundo aos seus pés com um dos épicos mais famosos da história – Coração Valente – Mel Gibson teve sua parcela de acertos e uma pá considerável de erros. A maioria deles fora das telas e dos sets de filmagem. Sempre que voltou ao cinema, principalmente na cadeira de diretor, Gibson fez trabalhos notáveis. A Paixão de Cristo e, principalmente, Apocalypto são feitos respeitáveis na carreira do artista. Como dito, entretanto, a vida real nem sempre imita a arte e, quando o faz, pode não ser de forma positiva. Escândalos aqui e ali jogaram Mel Gibson de lado. De ídolo campeão de bilheteria e vencedor do Oscar, o eterno Mad Max chegou ao fundo de um poço que parecia não ter fim ou retorno.

Depois de ensaiar bons retornos à carreira de ator (os filmes de ação estrelados pelo sujeito são, no mínimo, divertidos), Gibson parecia nunca emergir realmente, com condições de colocar o corpo para fora e sair de vez do poço. Foi voltando à Guerra, que tanto se fez presente em sua carreira cinematográfica nos mais diferentes níveis e épocas, que o ator e diretor expurgou demônios e conquistou seu espaço novamente. Não se engane, pois este não é um retorno breve ou uma ameaça; desta vez parece que ele veio pra ficar. Provas são o sucesso de público e crítica e as indicações ao Oscar para Até o Último Homem, sua mais recente investida como cineasta.

No longa, ambientado na Segunda Guerra Mundial, Desmond Doss é um jovem que não acredita na violência e se recusa a matar e até mesmo a pegar em uma arma. Decidido a ajudar na guerra, contudo, o sujeito se alista no exército e parte em sua jornada. Mas como um homem que não mata e sequer dispara um rifle pode ser útil ou sobreviver no campo de batalha? É isso que Gibson quer mostra em Até o Último Homem, ou, como originalmente chamado, Hacksaw Ridge.

Quem acompanha a carreira do diretor sabe que suas histórias sempre trazem a figura de um personagem lutando contra algo muito maior que ele, sob circunstâncias absurdas, quase impossíveis. Até em O Homem Sem Face, primeira e mais modesta investida como cineasta, Gibson trazia um homem indo contra preconceitos e seus iguais, que insistiam em querer separá-lo. Em comum, todos os seus filmes são inquestionavelmente humanos e sensíveis, indo totalmente contra a figura polêmica que Mel criou para si. Em Coração Valente, tínhamos o homem que se rebelava contra um reino inteiro em busca de vingança e liberdade; em Apocalypto, havia o homem tentando entender a própria evolução enquanto lutava contra povos inimigos, natureza e, em menor grau, colonialismo. A Paixão de Cristo dispensa comentários sobre isso, já que o subtexto é óbvio.

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Em Até o Último Homem, Doss entra facilmente para o grupo de heróis/anti-heróis que Gibson criou ao longo dos anos. Ao lado de Justin, Wallace, Jaguar e até mesmo Jesus, Desmond é um personagem que sofre, passa pelas mais diversas e absurdas adversidades para provar, no fim, a humanidade que vale a pena em cada um de – e todos – nós. No cenário de guerra, o diretor ainda faz um claro comentário antibelicista. Ao contrário do que alguns filmes atestam, o campo de batalha não é santo, e cada morte é um universo que se finda. Até o Último Homem não glorifica a guerra e seus soldados, pelo contrário, afirma como nada daquilo vale a pena ou faz sentido, algo que filmes como Guerra ao Terror e Sniper Americanos, em alguns pontos, não entendem ou não concordam.

Defendendo a figura única de Desmond surge Andrew Garfield, que despontou há alguns anos em A Rede Social e, desde então, aguardava o devido espaço para brilhar. Em Hacksaw Ridge, Garfield representa o espírito inquebrável de Doss com uma doçura e determinação notáveis, algo pouco visto em películas do tipo. Magro, desajeitado para algumas coisas e com alguns parafusos claramente soltos, Doss, apesar de não carregar um rifle, é o tipo de pessoa que você quer ter do lado em uma situação difícil, e o ator faz um trabalho memorável ao transpor toda a humanidade e coragem do homem através do olhar.

Do ponto de vista técnico, Até o Último Homem é irrepreensível. Gibson já provou que sabe comandar grandes cenas de ação lá em 1995, em Coração Valente, e novamente não decepciona. Graficamente violento, como todo filme do cineasta, Hacksaw é brutal e plasticamente belo ao mesmo tempo. Amparado pela montagem, o diretor consegue criar sequências claras de batalha, sem nunca confundir a audiência. Além disso, Gibson é hábil ao estabelecer o terreno onde o confronto acontece, transformando a experiência imersível e de fácil compreensão.

Até o Último Homem só perde um pouco do brilho se comparado a outros clássicos de guerra como O Resgate do Soldado Ryan ou até mesmo a Coração Valente. Neste caso, Hacksaw enfraquece por não ter um arco tão bem desenvolvido e amarrado como o visto no filme que rendeu o Oscar ao diretor. O desfecho é um tanto abrupto e o fato do confronto se passar em apenas um terreno acaba transformando o longa em um épico menor, de escalas limitadas. Alguns clichês do gênero, espalhados no meio do caminho, também tiram um pouco do brilho, mas nada que comprometa este que é mais um acerto de Mel Gibson na cadeira de diretor. Que seu retorno seja permanente e que o bom senso não lhe escape.

O Mix de Séries fará críticas e textos especiais sobre os principais filmes do Oscar. O primeiro texto, sobre La La Land, pode ser conferido aqui.

Até o Último Homem

Nota do filme - 8.8

8.8

Até o Último Homem representa o retorno de Mel Gibson aos holofotes - e à boa forma.

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About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.
  • Anderson Narciso

    Maravilhoso esse filme. Emocionante a história. Belíssima direção do Gibson e excelente atuação do Andrew Garfield. Me surpreendeu…