20 anos depois, Six Feet Under é uma série essencial

Aniversariante continua relevante vinte anos depois

Six Feet Under continua essencial
Imagem: Divulgação/HBO

A HBO mudou o jeito de fazer séries. Isso é fato. Entre os anos 90 e 2000, o estilo único de produção da emissora transformou o conceito que muitas pessoas tinham em relação à conteúdo televisivo. Emplacando sucessos como The Sopranos e Sex and The City, provou que podia oferecer linhas narrativas diferentes e um tipo de envolvimento do telespectador com a trama que não era visto nas séries de TV aberta. Assim, no meio do ano de 2001, nasceu a já clássica série Six Feet Under. Ou no Brasil, À Sete Palmos.

Continua após publicidade

Criada por Alan Ball, roteirista do sucesso Beleza Americana, a premissa da série poderia ser facilmente rejeitada em qualquer emissora de tv aberta. Focada na família Fisher, a série se propôs à acompanhar as vidas de personagens que trabalham numa funerária. Cada episódio apresentaria uma morte e suas consequências em cerca de 50 minutos de episódio. Nada mais animado para assistir numa noite durante a semana, não é?

Continua após a publicidade

Se engana quem acha que a série se resume à isso. Pela primeira vez, um produto de grande visibilidade fala sobre os aspectos mais profundos do sentimento humano. Luto, mágoas reprimidas, depressão. Além disso, realização, alegria. Nos seus episódios, a série se propõe a realmente conhecer seus personagens. Sendo assim, não vemos só os seus dias: conhecemos também suas constradições, suas mentiras e suas dúvidas. Tem algo mais humano do que isso?

Continua após publicidade
Prime Video: Six Feet Under
Imagem: Divulgação/HBO

Dos antigos tempos de 2001

A localização temporal de Six Feet Under é curiosa. Na verdade, tudo daquela época é muito curioso. No inicio dos anos 2000, tudo tinha uma pegada muito similiar aos anos 90, naturalmente. Mesmo assim, as ideias apresentadas faziam reverência aos novos tempos que haviam chegado. Numa Los Angeles de televisão de tubo e celulares completamente diferentes da nossa atual realidade, Six Feet Under consegue ser atemporal. Contudo, é evidente a evolução tecnológica e até de mentalidade visto entre a primeira temporada, em 2001 e a última, em 2005.

Parece até uma zona cinzenta do nosso tempo. Tudo que foi produzido em 2000 já tem mais de vinte anos. Mesmo assim, parecem coisas novas e muito recentes – como as pessoas nascidas nessa época. Não tem aquela estranheza em ver filmes gravados com outras tecnologicas, mesmo que a imagem seja diferente. O ritmo narrativo é basicamente o mesmo que hoje continua sendo popular nas séries da HBO (e de todos os streamings).

Continua após publicidade
Um Olhar Maníaco sobre Six Feet Under – Série Maníacos
Imagem: Divulgação/HBO

É com elenco que se faz boas histórias

Os personagens em Six Feet Under têm uma pegada curiosa. Inicialmente, você pode falar “isso é exagero, não tem ninguém assim”. Dois episódios depois, vai acabar constatando que conhece alguém exatamente assim. Ou até se vê naquele personagem. Coberto de diversas camadas, cada membro da família Fisher e seus agregados carrega consigo suas dores e dúvidas tão reais quanto as nossas próprias. Dar sentido à isso, porém, não poderia ser um desafio para qualquer um.

Sem querer parecer muito clubista (já parecendo), mas quem dirá que esse elenco não é um dos mais bem escalados da TV “recente”? Vários nomes vieram, inclusive, a fazer sucesso em outras obras conhecidad do público brasileiro: Peter Krause fez Parenthood, Michael C. Hall fez o protagonista de Dexter e Frances Conroy é um dos rostos mais conhecidos de American Horror Story.

Vivendo todas as idas e vindas emocionais dos personagens, esses atores deram vida à sentimentos que muitos de nós preferem deixar bem guardados internamente e nunca mais falar deles.

Six Feet Under essecial até hoje (principalmente)

Quem imaginaria, no inicio do séculos, que seriamos tão forçados a falar de morte? Essecialmente, o ser humano e o brasileiro evita o assunto a todo custo. Parece algo incomodo, mórbido e errado. Dessa forma, parece até estranho querer assistir uma série -em seu momento de relaxamento – que fala só disso! Por que iriamos querer isso, principalmente depois de sermos tão atingidos por uma pandemia?

Alan Ball pode ter a resposta. Em entrevista, o criador de Six Feet Under disse que um de seus desejos era transformar esse assunto tão dificil em algo mais leve para nós, telespectadores. Aliás, muitas pessoas o escreveram desde o fim da série para dizer que havia conseguido justamente isso. Através dos episódios, diversos telespectadores se sentiram tocados. Quando o infeliz momento de encarar a morte de algum conhecido chegou em suas vidas, sentiam o estranho sentimento de já ter vivido aquilo antes.

Aqui, alguém que nunca a assistiu pode pensar que a série banaliza a morte. Muito pelo contrário. Tratando da realide de quem vive com a morte diariamente, ela nos apresenta uma nova visão sobre o tema. Dessa forma, percebemos que há vida mesmo ao redor de tanto caos. Álias, esse séria um ótimo resumo para a série. Há vida ao redor de tanto caos.

Pessoalmente falando

Comecei a assistir Six Feet Under num momento de muitas dúvidas pessoais. Isso, dois anos atrás. Me conectar com aqueles personagens não foi difícil, mas sempre senti um clima diferente ao assistir os episódios. Por isso, escolhi uma abordagem que funcionou bastante para mim: assistir aos poucos. Desde que dei o primeiro play até o último episódio, dois anos e meio se passaram. Então, muita coisa mudou para mim. Além disso, entramos numa pandemia.

Com a chegada do HBO Max ao Brasil, a série ficou muito mais acessível à novos públicos. Pensei ser o momento perfeito para finalmente terminar minha longa maratona, faltando apenas 8 episódios para sua conclusão. Sempre ouvi que o final, os últimos minutos mesmo, era um dos melhores da TV. Pude concluir que sim. É muito raro encontrar uma série circular, que consegue abrir um arco na primeira temporada e fechar no seu derradeiro minuto e tudo ser muito bem amarrado. Sem trair sua essência.

Contato direto de primeiro grau

Me senti tocado, verdadeiramente. E sentindo saudades daqueles personagens e do que já tinhamos vivido. Por esse motivo, fiz o que qualquer quarentenado faz: ir falar com famoso no instagram. Já que o elenco é bem reservado, apenas uma das protagonistas tem conta verificada no instagram. E lá vou eu: mandar mensagem para Rachel Griffiths de madrugada. Para minha surpresa, ela respondeu.

“Rachel, querida, acabo de terminar Six Feet Under e vi você dizendo que muitas pessoas escolheram assistir a série na pandemia. Me fez pensar. É curioso como escolhemos assistir a série nesses tempos estranhos e estou tão feliz por ter o feito. Me sinto um pouco menos totalmente assustado com a morte e morrer. Lindo trabalho que você fez. Beijos do Brasil!”

“Obrigado e espero que esteja seguro por ai. Como vocês sofreram como país é muito triste de ver”

Como se assistir ao final da série já não tivesse me alegrado o suficiente, recebo uma resposta preocupada com nossa situação aqui no Brasil. Ao explicar mais sobre nossa visão como brasileiros, recebi ainda mais uma resposta:

“Deus! Não posso imaginar como conseguem passar por esse caos de incertezas e luto. Muito amor para vocês, beijos!”

Talvez isso tudo que falei aqui tenha ajudado a pintar uma boa imagem sobre essa série. Independente de se sentir atraído, o leitor pode perceber que ela deixa uma marca. Poucos são os que não se emocionam, se divertem e não refletem ao assistir Six Feet Under. Agora, muito mais pessoas poderá ter acesso à ela, na era dos streamings e na guerra deles pelo mercado nacional. Dessa forma, espero que aproveitem a chance e não deixem esse clássico moderno escapar.

Podem me agradecer depois.

Pernambucano estudante de Jornalismo na Paraíba. 19 anos. Fã de séries antes mesmo de entender muita coisa que elas mostravam. Aprendi inglês com How I Met Your Mother e a amar viagens no tempo com Doctor Who.