Cena de estupro em 13 Reasons Why foi exibida em hora errada e é perigosa

Imagem: Netflix

A série da Netflix vinha sendo criticada por glorificar o suicídio, mas esta segunda temporada tem problemas adicionais… 

[Nota: Esse texto contém SPOILERS da segunda temporada de 13 Reasons Why]

Grande parte da segunda temporada do drama juvenil 13 Reasons Why se situa no passado, a fim de obter esclarecimentos sobre os motivos que levaram a adolescente Hannah Baker (Katherine Langford) se matar. Infelizmente, no processo, revela-se que as questões que ela enfrentou – pressões sociais, intimidação, agressão sexual e violência – ainda são desenfreadas na Liberty High.

Isso leva o público à conclusão dramática da temporada no baile da escola que quase terminou em um tiroteio em massa. Coincidentemente, na manhã do dia 18 de maio – quando a Netflix disponibilizou os novos episódios – um tiroteio aconteceu em uma escola no Texas, matando 10 pessoas. A horrenda coincidência levou ao cancelamento da festa de estreia, mas o fato de a realidade ter invadido a série não poderia ser ignorado. Isso coloca um fardo extra – seja justo ou não – para a série abordar esses tópicos com sabedoria.

Em recente matéria, o portal IndieWire examinou como a capacidade desenfreada do programa ao abordar esses tópicos pode levar a mensagens confusas para o público, e trazemos para vocês essa análise.

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A Tragédia de Tyler

No final, a história do estudante Tyler (Devin Druid) é devastadora, perturbadora e potencialmente perigosa. No início da temporada ele gostou de experienciar a vingança, quando começou a brincar com os estudantes hipócritas que haviam maltratado Hannah. Como resultado, ele foi enviado para um programa de reabilitação que supostamente o ajudou a lidar com questões de raiva e fazendo-o a reagir apropriadamente aos outros. Mas ao retornar, ele descobriu que a garota que ele gostava estava namorando outra pessoa, e outro amigo não queria mais sair com ele.

Imagem: Netflix/Divulgação

Enquanto isso, Monty (Timothy Granaderos) ficou irritado por sua vida ter sido virada de cabeça para baixo. Tudo isso aconteceu graças as revelações no julgamento e as suspeitas de que ele poderia ter assediado outros estudantes. Ele precisava de um bode expiatório para descontar sua raiva, e em uma seqüência angustiante, Monty estupra Tyler no banheiro.

A cena é muito mais gráfica do que foi retratada em qualquer programa adolescente antes, mesmo em comparação com a primeira temporada. É tão brutal, na verdade, que muitos espectadores on-line questionaram se era necessário que a cena mostrasse tanto quanto (discutimos isso em outra matéria, relembre aqui).

Dedicado à vingança, Tyler aparece coms muitas armas, incluindo uma que se parece com um rifle semi-automático, e se dirige para o baile da escola. Alertado das intenções de Tyler por um texto, Clay (Dylan Minnette) insiste que ninguém chame a polícia e, em vez disso, elabora um plano. Ele confronta Tyler no estacionamento, e depois oferece ao garoto um carro de fuga, cortesia de Tony (Christian Navarro). A segunda temporada termina dessa forma.

O perigo desse fim…

Tal como acontece com o suicídio de Hannah, as mensagens aqui são confusas em muitos aspectos. Na mesma matéria, o Indiewire separou os tópicos e destacou os méritos da abordagem, mas também mostrou como eles podem ser bastante perigosos.

Dentre os méritos, destaca-se a intenção em mostrar que um estupro pode acontecer com qualquer um. Homem ou mulher. A ideia é de que este fato não tenha sexo para acontecer, não sendo algo exclusivo de jovens garotas como é quase sempre retratado. Além disso, é interessante destacar o acerto em mostrar que histórias como essa podem acontecer em qualquer lugar. E isso leva à uma outra questão, que foi a coragem da série em abordar esses tópicos, quando quase nenhuma outra aborda.

Porém, há perigos extremos nessa abordagem. Ao mesmo passo que abordar as chances disso acontecer em qualquer lugar seja um mérito, acaba também se tornando uma desvantagem.

É deprimente que a série tenha estrado no mesmo dia que um massivo tiroteio nos EUA. E mais preocupante é que muitas pessoas se tornaram insensíveis a isso. Os debates habituais sobre controle de armas surgem, mas nada é feito. Em contraste, aprendemos mais e mais sobre as metodologias dos assassinos e, embora os “crimes de cópia” não tenham sido um resultado comprovado, a cobertura freqüente desses crimes também não parece deter os atiradores.

E falando em atiradores…

É até tocante a forma como Clay consegue se conectar com Tyler, antes que fosse tarde demais. Mas em situações como essa, somente policiais e negociadores treinados são aptos a lidarem com esse tipo de crise. E a série faz questão de mostrar que Clay não quer a polícia envolvida nisso. Vocês não acham que o momento para conversar com Tyler deveria ter sido antes dele resolver pegar um monte de armas? Claro, a série fez um apelo dramático, mas na vida real quais as chances de Clay sobreviver àquele tipo de conversa? Zero.

É uma situação muito delicada, e altamente arriscada plantar na mente de adolescentes como lidar com esta situação.

Em entrevista ao IndieWire, a produtora executiva Joy Gorman Wettels disse: “Ninguém deve ficar no caminho de alguém com uma arma. Essa não é a maneira segura de impedir que a violência ocorra. Não é algo que estamos dizendo para as crianças fazerem, ficar na frente de alguém que tem uma arma. Você precisa entrar em contato com a polícia ou alertar outra pessoa.”. 

Imagem: Netflix

O programa usou de uma temática séria e delicada para criar um gancho no final… 

Fazer desse evento mortal um gancho para uma “próxima temporada”, coloca-o como um dispositivo de contar histórias, ao invés de tratá-lo com responsabilidade.

“Aqui está uma das maiores e mais assustadoras coisas que assolam a nação hoje. Fique ligado na terceira temporada para descobrir o que acontece a seguir.”. Basicamente, é esse tratamento que a história ganha, e até a série voltar para uma possível terceira temporada, muitos outros tiroteios terão acontecido até lá.

Em vez disso, o programa poderia ter introduzido essa história mais cedo na temporada, e então mostrado Clay ou outra pessoa lendo os sinais de alerta em Tyler – ou mesmo em Monty – antes que chegasse a esse ponto. Os episódios restantes poderiam realmente lidar com a situação.

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É claro que isso não seria tão dramático, e esse é um problema que a série vem enfrentando desde o início. Dado que o suicídio, a agressão sexual e os tiroteios em massa são tão comuns, o programa tem esse poder de familiarizar tais histórias com um “leigo”, e ela não pode simplesmente tratá-los como um enredo um dispositivo para entretenimento.

Embora a premissa inicial seria lidar com as conseqüências do suicídio de Hannah, essa temporada saiu ainda mais dos trilhos, e talvez devesse começar a usar seu poder para mostrar soluções, na tentativa de impedir que seus personagens problemáticos possam influenciar tais acontecimentos na vida real – ao invés de evitá-los. 

Leia mais: Associação de pais quer retirar 13 Reasons Why do ar por conta de cena de estupro

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Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.