Crítica: Euphoria tem 2ª temporada melhor e mais afiada

Euphoria retorna para 2ª temporada tensa e promissora

Euphoria
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Os primeiros minutos da segunda temporada de Euphoria emulam Martin Scorsese. Seja pela narração em off, pela edição ágil ou pelo tema envolvendo gangsteres, a série escancara suas inspirações logo de cara. Além desta, surgem homenagens e referências a vários nomes do Cinema. Seja Paul Thomas Anderson ou Quentin Tarantino, Sam Levinson, o criador de Euphoria, sabe de onde arrancar suas fontes. Neste sentido, o segundo ano surge mais maduro, denso e tenso. Com isso, Levinson, que escreve e dirige o primeiro capítulo, repete os feitos do quarto episódio da primeira temporada. Isso porque ele une todos os principais personagens em um só lugar e desenvolve seus dramas entrecruzando narrativas e problemas.

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Desta forma, vemos os rostos da série se encontrando em uma grande festa de réveillon. Nos últimos minutos do ano, personagens se cruzam, resolvem e criam novos dilemas e se embaraçam em uma teia de intrigas, futilidades, drogas e o anseio por mudança. Pois se a geração dos anos 1990 brigava contra o vazio da existência e a incerteza da vida adulta, a geração retratada em Euphoria busca a mudança enquanto jovem, ou apenas mantém a perdição na qual se sentem confortáveis. É uma era de maior consciência e autocrítica, de maior empatia, mas também de ódios indizíveis. Euphoria se sai bem porque sabe trabalhar essas idiossincrasias, sendo um belíssimo retrato da atual juventude.

Euphoria retorna tensa e bem amarrada

Assim, embora pareça que todos os problemas do mundo ocorram com um pequeno grupo de personagens da mesma escola (algo que destruía 13 Reasons Why, por exemplo), Euphoria sabe criar drama envolvente e enervante. Nesta perspectiva, o texto está muito mais enjambrado agora do que jamais foi. Não há espaços para perder tempo e tudo encontra explicação, reflexos ou rimas logo adiante. Logo, conhecer o passado de Fezco parece inútil em um primeiro momento, mas cria um belo alinhamento narrativo com o desfecho do capítulo.

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E é aí que as referências de Levinson ficam claras e bem amarradas. Como em Magnólia ou Boogie Nights, o roteiro desenvolve diversas ações simultâneas, com diversos personagens, que parecem ruir – ou crescer – em uma inquietante sinergia. Note como o texto costura tensão entre as cenas envolvendo Cassie no banheiro. Antecipando conflito e caos, Levinson deixa o público roendo as unhas. Como estamos recém no início da jornada, entretanto, a resolução não acontece agora. Ainda assim, o drama é estabelecido, o que prova a preocupação da série em criar não só boas histórias isoladas em episódios, mas uma temporada sólida.

Com isso, o roteiro brinca com as expectativas do público. Isso porque sabemos de coisas que os personagens não sabem, mas não sabemos nada sobre o que acontecerá em seguida. Que as resoluções sejam anticlimáticas é apenas um sinal de que o importante é o impacto dos acontecimentos na vida de cada personagem e não a ação em si. Neste ponto de vista é importante prestar atenção nas excelentes atuações do elenco, em especial Sydney Sweeney, Alexa Demie e Angus Cloud. Com personagens menores no primeiro ano, eles ganham tempo e espaço nesta nova temporada, o que permite novos dramas e interpretações mais ricas.

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Alguns excessos roubam a atenção do público

Euphoria ainda peca, entretanto, em alguns excessos. A banalização da nudez, por sinal, é algo que incomoda. É um problema não só da série, mas de alguns projetos da HBO, como Game of Thrones. Não que sejamos contra a nudez; não queremos séries puristas, mas alguns momentos soam deslocados, roubando a atenção do público e eliminando o impacto do drama. Pelo menos três destes momentos acontecem na première.

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Primeiro o ataque da avó de Fezco: havia necessidade daquele plano fechado enquanto ela atira? Alguns closes no corpo nu de Sydney Sweeney também chamam atenção pela gratuidade, assim como o rapaz que entra no banheiro e pede para Cassie sair. Sua nudez quebra o ritmo da cena e diminui o impacto da personagem, que vinha em um torturante momento. Neste sentido, em alguns momentos, Euphoria parece apenas interessada em chocar, em colocar um dedo na ferida e debochar: “eu posso, eu consigo”. “Olha como eu sou ousado e despreocupado! Estou mostrando um p*nis em primeiríssimo plano”.

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Ainda assim, é um tropeço perdoável se levarmos em conta a indubitável qualidade técnica de Euphoria. Neste sentido, além de um ótimo roteirista, Sam Levinson é um diretor de mão cheia. Filmada em película, num belíssimo 35mm, a série esbanja fotografia irretocável. Apostando na estilização, Levinson e sua equipe não poupam esforços para trazer planos e sequências elaboradas, tudo com o amparo constante da edição. Sob o ponto de vista visual e técnico, aliás, Euphoria talvez seja o melhor programa atualmente no ar. E os últimos minutos do capítulo de estreia são um deleite. Com jogos de luz e sombras, Levinson cria quadros memoráveis (como aquele que traz Cassie e Maddy juntas na pista de dança com Nate ao fundo).

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Estreia prepara o terreno de uma empolgante 2ª temporada

E não é só na direção de câmera que o sujeito se sai bem. No comando dos atores há talento de sobra. Zendaya segue excelente, muito embora pareça coadjuvante em sua própria série. Hunter Schafer, por sua vez, é um assombro. Cada minuto seu em cena vale ouro e eleva a força do projeto. Caso exista justiça no mundo, ela e outros membros do elenco (assim como Levinson) merecem aparecer no próximo Emmy.

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Preparando o terreno para o restante da temporada (algo que toda estreia deve fazer), a estreia de Euphoria representa um passo em frente. Assumindo o peso do sucesso e das expectativas, a série retorna melhor e mais afiada, mais arriscada e segura de si. Caso dose alguns exageros e encontre equilíbrio entre o explícito e o sentido, temos aqui uma forte candidata aos primeiros postos na lista de melhores séries do ano.

Nota: 4/5