Precisamos da Catástrofe

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

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Quase que uma provocação, um título abertamente em favor da catástrofe parece ter algo de errado. Mas você entendeu corretamente. Nunca pareceu mais apropriado discutir os escapes de realidade que trazem consigo uma porção extra de maremotos, terremotos, tsunamis, vulcões, incêndios, tornados e, vez ou outra, zumbis.

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Na verdade, desde um certo Independence Day – que, com todos os seus defeitos, reduz grandes cidades a pó e nos presenteia com alguns minutos de diversão – essa ideia já figura na minha lista de possíveis Editoriais. Mesmo figurando nas séries associados a grandes eventos e finales traumáticas – Shonda Rhimes não termina uma temporada de Grey’s Anatomy sem uma boa contagem de corpos –, todo um gênero de cinema catástrofe bagunça bonito com a humanidade repetidas vezes, em ensaios para a extinção da humanidade com garantia de final.

Realidades alternativas, extinções em massa, o completo desmantelamento da civilização, ordens de robôs assassinos… Seja como for que começa, quanto mais avançamos nessa pós-modernidade cheia de incontáveis problemas, ver a humanidade ser destroçada parece ter um apelo crescente. Afinal, e não entrarei neste debate aqui, a TV, a Literatura e o Cinema refletem a situação da sociedade em suas mais variadas nuances. A quebra da bolsa de 1929, a depressão americana e indícios da Segunda Guerra Mundial trouxeram ao cenário novas tecnologias, e a ficção (científica) deitou e rolou com isso nos anos de 40, 50 e 60, olhando para o núcleo familiar desbaratado e desfigurando santidades e valores, com doses de terror e mortes violentas – bem temperados com a ameaça da Terra ser destruída por monstros, dinossauros, aranhas gigantes e vários tipos de extraterrestres e entidades demoníacas.

A humanidade se interessa há bastante tempo por calamidades e suplícios e desenvolve angústias e inquietações a respeito da destruição do mundo, seja por questões existenciais, medo, dúvida ou qualquer prazer mórbido. Ensaiar e melhor, sobreviver a essas calamidades traduz a magnitude do pavor e do alívio que ser confrontado com essa noção de finitude traz. E é exatamente por isso que precisamos da catástrofe.

Toda sociedade está marcada pela ideia de morte/fim, individual e/ou coletiva. A catástrofe geralmente nos entrega o resultado da ação humana ou de uma agente externo, sem nos deixar esquecer de que esse futuro está sim entre as possibilidades, mas que podemos apreciar a ideia de que isso, sendo entretenimento, não vai acontecer. Quando nos deparamos com o total do “absurdo” que a catástrofe vez ou outra representa, acabamos por refinar nossa suspensão de descrença e, quem sabe, ao ver a realização de tamanha destruição, aliviar o peso da inexorável certeza que é a finitude humana.

Na verdade, as representações de catástrofe, independente do quão próxima ou não da realidade e dos “fatos reais” ela seja, essa forma estética traz um je ne sais quoi ao que consumimos. A ideia de derrotar o monstro, de sobreviver – obviamente, já que estamos do lado de cá da tela – ao máximo da aniquilação denuncia a condição humana e cada vez que digerimos uma dessas grandes aniquilações, fica muito mais fácil encarar toda a miríade de absurdos que circulam ficção a fora, além da própria possibilidade de morrer de forma absurda e brutal.

Talvez seja um absurdo gigantesco considerar a catástrofe como uma alternativa para dessaturar nosso imaginário e horizonte de expectativa, mas é certo que esquecer do potencial da catástrofe para nos presentear com elencos classe A morrendo de formas espetaculares com CGI e orçamentos que impressionam – ou seja, uma hora de razoável diversão. Afinal, as vezes todo mundo precisa de uma hora e pouco de desastre ficcional.

Tags Editorial
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.

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