Quando a adaptação é reconhecida

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Foram revelados na última semana os indicados ao Writers Guild Awards, o prêmio organizado exclusivamente por e para roteiristas. E uma das categorias é a de Melhor Roteiro Adaptado. Na categoria, é comum que as minisséries e filmes se sobressaiam, haja vista que é este formato que dá maior espaço para adaptações literárias. Dos cinco nomeados, quatro são baseados em livros e um em uma peça de teatro. E a concorrência é forte: Klondike, Houdini, The Leftovers, Olive Kitteridge e The Normal Heart. Destes, The Normal Heart é o único que não buscou inspiração nas páginas dos livros.

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Para começar temos Klondike, o primeiro programa de ficção do Discovery Channel. A minissérie nasceu pela ideia do canal produzir uma trama de ficção que complementasse seus documentários. O resultado foi bem sucedido. Exibida em três dias, o programa conseguiu uma média final de 3 milhões de espectadores. No Brasil, infelizmente, não recebeu a atenção merecida, passando um tanto em branco. Produzida por Ridley Scoot, a trama acompanha William Haskell (Richard Madden, de Game of Thrones) e Bryon Epstein (Augustus Prew, de The Borgias), dois amigos que decidem explorer ouro na região de Klondie, na fronteira entre Canadá e Alasca. Lá eles encontram um padre jesuíta chamado William Judge, o jornalista Jack London (ambos realmente existiram), uma determinada proprietária de uma loja de penhores, vigaristas de todos os tipos e o Conde, um alemão que é a síntese de todo o mal que o lugar poderia abrigar.

A maioria dos personagens não existiu, mas o pano de fundo busca a maior proximidade à realidade possível. Com belíssima fotografia, elenco competente e uma história que remete aos velhos e bons faroestes, Klondike agrada principalmente por não ser uma obra didática. Ainda que produzida e distribuída por um canal especializado em documentários, a série é, antes de tudo, uma ficção. A inclusão do Discovery no campo da ficção agrada e merece continuar.

 

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Outro indicado é Houdini, baseado no controverso Houdini: A Mind in Chains: A Psychoanalytic Portrait, de Bernard C. Meyer. O livro coloca Houdini sob uma perspectiva filosófica e levanta alguns temas interessantes e/ou polêmicos. A obra sugere, por exemplo, que Houdini poder ter sofrido claustrofobia. Além disso, Meyer levanta algumas questões familiares problemáticas, humanizando o famoso personagem. A minissérie tenta balancear o Houdini conhecido pelo público com o homem misterioso cheio de segredo. E se dá bem na maior parte do tempo. Sua indicação ao WGA, porém, talvez tenha se dado pelo fato do livro ser reconhecidamente complexo e controverso e não pela qualidade do roteiro em si.

Outro indicado é The Leftovers, série da HBO baseada no livro homônimo de Tom Perrotta. O piloto, escrito por Damon Lindeloff e pelo próprio Perrotta usa e abusa dos mistérios e afastou muita gente devido ao excesso de segredos. Mas o grande barato da história não está nos mistérios, mas nos personagens. Perrotta é o autor dos livros que deram origem aos filmes Pecados Íntimos e Eleição. Ambos dão destaque aos personagens e como os eventos adversos afetam as pessoas. No fundo, Leftovers tem a mesma abordagem: a intenção é discutir como o arrebatamento afeta quem ficou para trás e não “sumiu”. Perrotta comentou certa vez que a ideia para o livro surgiu depois de ler A Estrada, de Cormac McCarthy. A série não é tão apocalíptica como o livro sugere, mas é, sempre que possível, fiel ao material original. Ainda que tenha sido elogiada por parte da crítica e recebido esta indicação ao WGA, a HBO exigiu um reboot criativo para a série, onde os roteiristas deverão tornar a história mais acessível e convidativa para o público. No processo, vários membros do elenco ficarão de fora e é possível que a série se distancie do livro cada vez mais.

A para encerrar temos a melhor dentre as concorrentes: Olive Kitteridge. A minissérie da HBO adapta o livro homônimo de Elizabeth Strout e tem Frances McDormand à frente do fabuloso elenco. A minissérie (a melhor do gênero em 2014) se sai muito bem justamente por respeitar e seguir o material original. Tanto o livro quanto o programa mostram a vida de diversos moradores da cidade costeira de Crosby. Entre eles, a mais ilustre talvez seja Olive, uma depressiva e mal-humorada professora. A minissérie é excelente por focar na vida comum das pessoas e por ter como protagonista uma personagem fácil de odiar. Já o livro é tão bom e envolvente que a própria McDormand comprou os direitos autorais para poder adaptar à história. O Cinema, porém, não seria viável. Para a atriz, um filme não comportaria o épico sobre a vida comum que a história comprime. A saída foi levar a proposta à TV, o grande celeiro da liberdade criativa. McDormand, inclusive, trata o livro e a minissérie como seu “bebê”, tamanho o amor e a dedicação envolvidos. Caso exista justiça no mundo, será a vencedora do WGA.

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