Crítica: Conversando com um Serial Killer, da Netflix, mostra a frieza de Ted Bundy

Imagem: Netflix/Divulgação

Ted Bundy volta aos holofotes trinta anos após sua execução

A Netflix trouxe Ted Bundy de volta para o centro das atenções. Muitos dessa geração podem não se lembrar, ou sequer saber quem fora Ted Bundy. Entretanto, sua presença ficou marcada na história dos Estados Unidos como um dos maiores assassinos em série que já existiu.

No documentário, Conversando com um Serial Killer, dividido em quatro partes, a vida de Bundy e – principalmente – seus assassinatos são tratados com bastante precisão.

Ele era introvertido quando criança e permaneceu assim na adolescência. De uma infância enigmaticamente conturbada a uma fase pré-adulta em que ele ensaiou uma carreira na advocacia, Bundy desenvolveu um desejo para matar. Aos poucos, começou a raptar mulheres, matá-las e estuprá-las. Outras vezes, ele simplesmente invadiu suas casas e as atacou enquanto dormiam.

Uma de suas primeiras vítimas documentadas, Karen Sparks, sobreviveu a uma surra em sua própria cama com uma haste de metal que Bundy então usou para estuprá-la. Certamente, se tornou manchete internacional. Na investigação policial – que incluiu Oregon, Idaho, Utah e Colorado, uma mitificação em torno de Bundy era criada.

Muitas o temiam. Outras ficavam fascinadas. E nesse misto, ele continuou a atacar quando talvez tenha feito um de seus mais notáveis assassinatos. Em julho de 1974, no Lake Sammamish State Park, duas mulheres desapareceram no mesmo dia. Testemunhas disseram à polícia que viram uma possível descrição que batia com Bundy. Entretanto, não conseguiram identificá-lo. Porém, tudo foi se encaixando até que provas começaram a aparecer. Em pouco tempo, Bundy era um dos homens mais procurados dos Estados Unidos.

Drama criminal viciante

Claro que se você for um fã do tema, provavelmente já sabe as histórias destes crimes reais. Mas sua assemelhação com uma trama de cinema é o que fornece peças interessantes para que a Netflix fizesse um documentário com trama de série.

Uma vez que ele atraía suas vítimas para a porta do carro, ele batia nelas e as levava embora para reservadamente desfrutar de suas mortes. Ele preferia matar mulheres bonitas de cabelos escuros. Todas parecidas. Contudo, chegou a matar uma garota de 12 anos. Além disso, depois de preso, chegou a fugir – duas vezes – tendo matado mais nove mulheres nesse meio tempo.

Assim, o documentário em quatro partes dirigido por Joe Berlinger tem um excelente plot nas mãos. Entretanto, não adiciona muitas informações além do que se acha na internet. Mas a forma que ele realiza é tão brilhantemente estruturado e editado, que fascina a cada minuto. Assim, as personalidades e histórias das vítimas de Bundy são recontadas entre a década de 1960 e 1970. Tudo muito bem explicado e definido.

A partir de então, somos apresentados a trajetória de Bundy enquanto assassino e prisioneiro. Em áudios gravados em 1980 temos a espinha dorsal do documentário. De tal modo, conhecemos seus trejeitos – como mencionar a si próprio em terceira pessoa. Ou, então, a fantasia que criou a ponto de querer defender a si próprio em dois julgamentos, alegando inocência.

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Ted em um de seus julgamentos. Imagem: Netflix/Divulgação

Porém, o documentários tem seus problemas. Mesmo com um reconhecimento completo e auto depreciativo de que Bundy ainda mente quando afirma que está dizendo a verdade, e apesar do excelente entrelaçamento de fotos pessoais, provas policiais e imagens de arquivo dos Seattle dos anos 70, parece em grande parte inconsciente de sua própria ignorância.

Falando apenas de Ted Bundy e ignorando as vítimas em si…

Só porque a série pretende chegar no centro da trama de Bundy, não significa que era a única forma de contar essas histórias potencialmente interessantes. Havia, pelo menos, 30 outras histórias que Berlinger poderia ter contado: as das vítimas de Bundy. Mais ainda, o documentário escolhido para expandir as histórias de seus amigos de infância, ou os detetives e policiais de patrulha que ficaram traumatizados com a investigação de seus crimes. Com algumas exceções fugazes, as pessoas cujas as vidas Bundy danificaram ou roubaram permanecem abstrações, um passo acima dos números em um livro de registro.

Claro que o documentário tinha muito material para desbravar, e momentos interessantes, como no meio do julgamento ele pedir uma “admiradora” em casamento, e alegando em seguida que não deveria ser preso no dia do seu casamento. Mas, existiam outras histórias importantes que podiam, ou ainda precisavam, ser contadas.

Isso é particularmente decepcionante à luz do histórico de Berlinger. Uma das características artísticas distintivas do diretor é a sua mistura de “desapego frio e quase kubrickiano”, junto à empatia genuína pela miséria de indivíduos cujas comunidades são destruídas pelo homicídio. A primeira qualidade está presente aqui no documentário, de forma contundente. Mas a segunda desaparece em grande parte.

Assim, Conversando com um Serial Killer se torna, aparentemente, um prelúdio para uma versão ficcional do filme que o cineasta está realizando sobre Bundy, que será estrelada por Zac Efron. Bundy pode ter sido um buraco negro de um ser humano, mas ele estava cercado por uma constelação de outras histórias que vale a pena contar também.

De qualquer forma, é um documentário que prende, chegando em um final satisfatório ao contar a história do famoso assassino, Ted Bundy.

Certamente, vale uma maratona…

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Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.