Crítica: Dirty John, série da Netflix, é tímida e pouco ousada – mas com boas atuações

Dirty John

Imagem: Bravo/Divulgação

Uma dose extra de ousadia com Dirty John, nova série da Netflix

Quando o Bravo anunciou que começaria a produzir dramas com roteiro (lá em 2014 com Girlfriends’ Guide to Divorce), fiquei empolgado. É verdade que sou suspeito por gostar dos reality shows que o canal produz (nem me pergunte sobre The Real Housewives), mas é sempre bom quando a executiva de uma emissora decide abrir uma sala de roteiristas. Gera mais empregos, mais oportunidades e possibilidade de profissionais prosperarem. Infelizmente, o boom não durou muito tempo. Odd Mom Out acabou cancelada e a série estrelada por Lisa Edelstein não fez o sucesso esperado. Foi aí que em janeiro de 2018, a emissora encomendou Dirty John. 

Dirty John - O Golpe do Amor

Imagem: Michael Becker/BravoDirty John – O Golpe do Amor

Tendo estreado lá fora no ano passado, a trama chega ao Brasil pela Netflix em 2019. Baseada num podcast homônimo do Los Angeles Times, a série também bebeu da vida real para contar sua história. O drama acompanha John Meehan e sua vida de abusos, enganações e traições. Mais especificamente quando se envolve com Debra Newell. Basicamente, essa é a premissa que se desenvolve através de oito episódios. O que me deixou extremamente frustrado haja vista que outras séries baseadas em crimes reais foram além do material base e exploraram questões sociais. Como foi o caso mais recente de Law & Order: True Crime, que não tratou só do crime dos irmãos Menendez como nos trouxe um recorte delicioso sobre a sociedade americana dos anos de 1990.

Uma série de atores

Embora seja uma história fascinante, o roteiro enfadonho e a direção preguiçosa deixam o todo espetáculo nas mãos de Connie Britton e Eric Bana. O ator, mais precisamente, traz uma dos seus melhores trabalhos em anos. Flertando com a decadência desde Munique em 2005, ele aqui entendeu o personagem de uma forma impressionante. Sendo assim, mostrando uma habilidade singular de personificar uma figura sedutora, mas ao mesmo tempo vil e mesquinha. Na recente safra dos anti-heróis, poucos atores compreenderam que um bom vilão não deve desperta apenas a simpatia do telespectador. Mas sim, fazê-lo entender seus motivos e perceber que a vida não é simplesmente preto e branco. Eric Bana não só entendeu esse conceito, como também trouxe uma aula de atuação.

Connie Britton, por sua vez, continua fazendo algo que poucas atrizes de meia idade conseguem em Hollywood: reinventar-se a cada personagem. Em Nashville foi a rainha do country em busca de uma nova chance. Já em 9-1-1 viveu uma mulher madura dividida entre cuidar da mãe idosa e viver uma história de amor. Desta vez, em Dirty John, ela está na sua melhor forma com simpatia, delicadeza e sensibilidade em compor uma mulher complexa. Como foi lembrado na reunião de The Real Housewives of Orange County, muitas mulheres pode ser representadas por Debra Newell. Connie acerta mais uma vez e impressiona. Sua indicação ao Globo de Ouro foi surpreendentemente acertada.

Problemas e soluções

Para uma minissérie de apenas seis episódios, Dirty John traz problemas que produções longevas costumam apresentar no decorrer dos anos. Muitas vezes a direção investiu em longas cenas, cujo diálogo não levou-nos a lugar algum. Atores, apesar da sua qualidade, não conseguiam segurar a impressionante falta de visão do diretor. Contudo, a sequência ficava ainda pior quando atores coadjuvantes assumiam a responsabilidades de impressionar em cenas dramáticas. E o alívio cômico? Continuo à procura após essa rápida maratona.

Acredito que Dirty John – O Golpe do Amor é um grande passo do Bravo em direção a excelência dramática. Precisa-se de atores com qualidade? Sem dúvida. Contudo, é preciso entender que uma produção também precisa de uma boa equipe de direção e roteiristas para ser igualmente contundente. Essa uma série sobre uma mulher forte e um sociopata, mas poderia ser tranquilamente um episódio de Desperate Housewives.

Em suma, ainda ressalto que perdeu-se uma grande oportunidade de falar sobre a alta sociedade sul californiana. Além disso, também desperdiçou-se uma grande possibilidade de revolucionar o gênero ao, mesmo em poucos episódios, oferecer um conteúdo inteligente e novelesco. Infelizmente, só tivemos o último.

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Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.

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