Crítica: Onisciente, a “Black Mirror brasileira”, estreia na Netflix pouco inventiva

Onisciente, a "Black Mirror brasileira" estreia na Netflix pouco inventiva

Segurança e privacidade são os pontos de discussão da série Onisciente

Podemos dizer que Pedro Aguilera foi bem sucedido ao produzir a série 3% e isso animou a Netflix a apostar mais nas produções brasileiras. Com a quarta e última temporada da série 3% já garantida, o roteirista e criador Pedro Aguilera já encontrou um novo projeto para se dedicar. Sem muita divulgação, a nova produção brasileira, Onisciente, chegou à plataforma da Netflix de forma quase silenciosa. O thriller de ficção científica traz uma premissa interessante que evoca Black Mirror ao mostrar uma sociedade dominada pela tecnologia e seus efeitos negativos.

Em um futuro (não tão distante), uma cidade é monitorada constantemente pelo sistema de vigilância Onisciente. Cada cidadão possui um pequeno drone, quase imperceptível que monitora tudo o que acontece e repassa os dados para um supercomputador que analisa tudo sozinho. Nenhuma pessoa tem acesso a ele. Desta forma, a criminalidade é quase nula. Todos sabem que se algum crime ou infração for cometido, o culpado será capturado quase que imediatamente e responderá por seus atos.

Para a jovem Nina (Carla Salle) tudo parece funcionar perfeitamente. Ela faz parte de um programa de trainee da Empresa Onisciente, sonha em ser efetivada e leva uma boa vida com o pai e seu irmão Dani (Guilherme Prates). Os cidadãos vivem em segurança e a criminalidade quase não existe, mas tudo muda quando acontece um assassinato que não é reportado ao supercomputador. A partir disso, Nina começa sua própria investigação em busca da verdade. Diante de dilemas morais e éticos, a protagonista trilha um caminho perigoso onde acaba esbarrando em segredos do governo e da própria empresa.

“Não é privacidade vs. segurança, é privacidade e segurança”

O conceito do sistema Onisciente apesar de inteligente e interessante, prova que não é perfeito. O assassinato do pai de Nina não é identificado pelo sistema e, por isso, ela decide investigar para desvendar não só o motivo do crime, mas também quem o matou e, principalmente, como o crime foi encoberto. Embora a trilha sonora não favoreça muito, a série consegue criar através dessa premissa uma atmosfera de tensão e suspense, onde não é possível confiar em ninguém até que a verdade seja descoberta.

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É notável a inspiração de Pedro Aguilera no famoso livro “1984” do autor George Orwell que depois de muitos anos serviu como base para reality shows (Big Brother, por exemplo). Estabelecer o paralelo entre o “grande irmão” do livro com o sistema Onisciente da série se torna algo natural. O mesmo cenário de vigilância, e a partir disso surge o conflito entre privacidade e segurança. Discursos como “Sistema Onisciente, viva sem medo”, ou “Não é privacidade vs. segurança, é privacidade e segurança, nenhum ser humano tem acesso as imagens do sistema”, é uma forma do Sistema controlar a sociedade, plantando a ideia de segurança e privacidade.

O universo criado em Onisciente se expande, o que eu considero um grande acerto nesta curta primeira temporada. A cidade vigiada permite receber visitantes para experimentar o estilo de vida “Big Brother” e também permite a saída de seus cidadãos a qualquer momento. Ao sair da cidade, seus drones entram em modo hibernação. Fora da cidade, a sociedade se parece muito com a nossa sociedade atual. Pessoas vivendo sob o medo e a violência. Explorar o mundo além da cidade possibilita novas discussões e, mais uma vez, tudo fica apenas na superfície.

Onisciente apresenta alguns problemas em sua estrutura

Apesar de trazer uma discussão bastante atual sobre segurança, vigilância e privacidade, a primeira temporada com apenas seis episódios sofre com algumas falhas. A série até consegue ser dinâmica e equilibra todos os temas propostos, no entanto, tudo fica muito raso. Algumas subtramas parecem não conversar com trama central. Um determinado personagem sai da cidade vigiada e faz uma espécie de “expurgo” violentando um morador de rua. Uma informação simplesmente jogada na tela para logo depois ser esquecida. As atuações não são espetaculares, mas também não são tão ruins.

Mesmo diante de uma vigilância absoluta, Nina não mede esforços para encontrar as respostas que precisa para desvendar a morte de seu pai. As conveniências da trama que facilitam a investigação da personagem incomodam um pouco. Outro problema é a superficialidade no funcionamento dos drones, que ficam responsáveis por identificar e reportar os crimes. Ao longo dos episódios, várias formas de desviar dos drones são apresentadas ao público. Dessa forma, a credibilidade do Sistema se torna questionável.

Mas a série não é marcada só por erros. Em pequenas situações, convida o público a refletir. Dentre tantas questões que a série levanta, uma delas diz respeito ao comportamento do ser humano enquanto cidadão. Fazendo uma análise de comportamento, como as pessoas são quando estão sendo vigiadas e como elas são sem vigilância? Esse modelo de sociedade só funciona porque a disciplina é regida pela política do medo, para ser mais preciso, o medo da punição.

Considerações finais

Onisciente é pouco criativa e não se arrisca no desenvolvimento da trama. Cumpre seu papel em levantar reflexões pertinentes, principalmente se compararmos com nosso momento atual. Informação é poder, isso se torna ainda mais forte no final da temporada. Carla Salle carrega as típicas características de uma protagonista do gênero e defende bem sua personagem dentro do possível.

Ainda que suas reviravoltas não sejam surpreendentes, e a grande revelação não tenha o devido peso, em geral a série funciona. A direção brinca alternando as imagens das câmeras dos drones e da câmera principal. A produção, mesmo parecendo simples e pouco ambiciosa, é competente na construção desse novo mundo distópico, porém falha por deixar tudo na superfície.

Mesmo que a fase das distopias já tenha passado, Onisciente surge como uma substituição para o público que ficará órfão de 3% este ano. Apresenta um novo universo cheio de possibilidades que ainda não foram devidamente exploradas em sua primeira temporada. A série entrega desenvolvimentos rasos e um tanto quanto previsíveis. Tem potencial para agradar o público, só é preciso um pouco mais de engajamento e criatividade para explorar todos os temas sobre esse mundo vigiado. Mas diante de tanta variedade e publicidade de outros títulos na plataforma, é possível que Onisciente seja esquecida ou, quem sabe, encontrada acidentalmente.

Nota da temporada6.5
Critica da primeira temporada de Onisciente, série brasileira original Netflix.
6.5
Tags onisciente
Yuri Alves

Yuri Alves

Bacharel em Direito, fascinado pelo universo dos heróis e um viciado por séries e filmes. Um escritor a procura do meu espaço. Amante dos livros e da boa música. Adoro realitys. A série da minha vida , The OC. No Mix, sou responsável pelos textos de algumas séries como, Blindspot , Ozark, La Casa de Papel entre outras. Quando não estou no cinema ou maratonando uma série estou me aventurando na cozinha.

2 comments

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  1. Avatar
    Carlos 2 fevereiro, 2020 at 09:27 Responder

    As atuações são horripilantes, medonhas, em muitos momentos pensava se estava assistindo a Malhação ou uma série da Netflix. E não culpo os atores, eles tem muito o que render, isso foi problema de direção e infelizmente é o que mais temos no Brasil: atrizes e atores cheios de potencial nas mãos de diretoras e diretores medíocres, só por isso ainda não temos um cinema de ponta, a galera da direção tem preguiça de aprender, melhorar, fazer acontecer.

  2. Avatar
    Diony 28 junho, 2020 at 20:44 Responder

    Pois é, concordo com você que algumas atuações foram ruins, 4 atores da série que eu já vi atuando em outras produções de maneira boa pareciam atores ruins nessa série.

    Carla Salle, Jonathan Haagensen, Sandra Corveloni e Marcello Airoldi não parecem bem dirigidos

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