Crítica: The Handmaid’s Tale se reencontra e mantém o ritmo nos episódios 5 e 6 da 2ª temporada

Imagem: Netflix/Divulgação

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Mesmo com repetição, episódios 05 e 06 apresentam arcos interessantes.

The Handmaid’s Tale ensaiou um preocupante retrocesso no quarto capítulo de sua segunda temporada. Ao impedir a liberdade de June e levá-la de volta à casa onde tudo começou, a série praticamente voltou à estaca zero. Depois de investir em sofrimento incessante e brincar com os anseios dos personagens – e da própria audiência -, o programa nos mostra June de volta ao seu papel de Offred. Em certo aspecto, é como se os roteiristas tivessem nos traído: depois de tanto tempo investido, é um retrocesso (e não há outra palavra, pois é isso que é: retrocesso) para a personagem e para o programa voltar a este ponto.

Uma temporada inteira foi desenvolvida com base na presença de Offred lutando para fugir e vencer seus vilões. Quando a narrativa desenvolve e o arco dramático de Offred torna-se complexo e caminha, o show faz algo imperdoável: volta ao ponto inicial. É comum que as séries parem, estabilizem em um ponto e não desenvolvam mais nada. São vários os exemplos espalhados pela televisão: depois de alcançar certo sucesso e respeito de público e crítica, as séries freiam em um determinado ponto e param de crescer. É lamentável, mas não é pior do que aquelas que não só param como dão passos para trás, ignorando toda a construção de personagens e narrativas cuidadosamente criada.

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Série retoma a confiança.

Foi com receio, portanto, que assisti os novos capítulos. Ao fim, a sensação é de tranquilidade, mas com leve preocupação: é visível que June não simplesmente abraçou a identidade de Offred novamente. Ela está pensando em algo e tem um objetivo, apenas não sabemos qual é.

Ainda assim, o gosto de repetição é latente. É cansativo ver June novamente sofrendo nas mãos de Serena. Não só June, Nick é outro que tem sofrido: em um plano mórbido de Serena, Nick se vê “crescendo” na hierarquia ditatorial e agora deve se casar. É aí que conhece sua esposa, uma menina de quinze anos que é obrigada a engravidar e prestar relatórios à Gilead.

É sofrimento pra todos os lados, e entendo a decisão de alguns espectadores, principalmente mulheres, que decidiram abandonar a série: não há recompensa em The Handmaid’s Tale. Há luta, coragem, rebeldia e sacrifício, mas nenhuma recompensa. Isso se agrava quando vivemos em um mundo cada vez mais próximo da distopia vista na série. Além de termos vitórias no nosso cotidiano, o programa que assistimos segue o mesmo caminho e apresenta apenas decepções.

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A perspectiva parece mudar no sexto episódio, que encerra com a explosão que parece ter matado Fred e diversos outros membros da Gilead. O sexto capítulo, aliás, resgata as esperanças e muitas das qualidades da série. Depois de levar os heróis às situações mais deprimentes, Handmaid’s Tale reencontra o ritmo certo e investe no desenvolvimento das relações entre personagens. O capítulo acerta ao tornar Serena mais complexa: ao conhecermos mais de seu passado e vermos suas tentativas de se aproximar de June, podemos conhecer um pouco mais da mulher que, assim como a maioria das pessoas vistas ali, é trágica.

Personagens tornam-se mais complexos: todos são vítimas!

É aqui que o programa acerta: depois de tornar Tia Lydia curiosamente mais complexa e dúbia, ao trazê-la chorando nos primeiros episódios, o show se sai bem ao tornar outra vilão um pouco mais humana. É verdade que, no fim, Serena volta a ser um ser humano desprezível; ainda assim, vale perceber como a situação também não favorece à esposa de Fred. Ela é, assim como praticamente toda mulher da série, uma vítima. Sim, ela é vilã e merece pagar pelos seus crimes indizíveis, mas também é um ser humano complexo, uma personagem que cresce neste início de segunda metade de temporada.

É por falar nisso, é preciso conjecturar acerca do que vem a seguir. Handmaid’s Tale entra na sua segunda metade, rumando ao final. O tempo passou rápido e, logo, a temporada acaba. A gravidez de June deve chegar ao fim em breve e o clima na casa promete esquentar. A situação nas colônias precisa ser melhor desenvolvida. Além de ser um ótimo cenário, as tramas deste núcleo são ótimas, principalmente quando focadas em Emily. Assim, espero que até a finale possamos ver mais do que acontece nas violentas e áridas colônias.

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Além disso, tudo pode mudar a partir de agora. Depois do atentado à reunião da Gilead, é possível que a série sofra uma enorme reviravolta. É a chance dos mocinhos revidarem e aproveitarem o espaço. Já passou da hora de Handmaid’s Tale explorar outros núcleos. Ao ficar presa em June, falha ao esquecer bons personagens em outros espaços. Em tempo, resta elogiar a direção de Mike Barker, também responsável pelos dois capítulos iniciais. É nítido o talento do diretor no comando da série, tanto na condução da narrativa quanto no apuro visual. Os quadros criados por Barker são pinturas e o ritmo empregado por ele é excelente. Nas mãos do diretor, a série cresce em diversos níveis.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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