Crítica: Umbrella Academy, da Netflix, começa bem mas perde o brilho no caminho

Imagem: Netflix/Divulgação

The Umbrella Academy promete ser o novo sucesso da plataforma

Ainda que venha de uma HQ relativamente conhecida e tenha alguns rostos famosos no elenco, The Umbrella Academy começou de surpresa a sua caminhada no mundo televisivo. O burburinho começou de verdade depois que a série passou pela CCXP, no Brasil, e desde então vem ganhando força e atenção. É costume da Netflix anunciar um novo programa perto da data de lançamento, e por mais que o período de divulgação tenha sido curto, Umbrella Academy promete ser um novo sucesso da plataforma.

Na trama, diversas mulheres ao redor do mundo dão à luz crianças que não estavam esperando. As crianças, nascidas sob circunstâncias absurdas, ganharam os holofotes. Um bilionário, então, resolve adotar o maior número possível de bebês. Consegue sete, os quais nomeia numericamente: Número Um, Dois, e assim sucessivamente. Cada um possui um poder diferente, com exceção da Número Sete (Ellen Page) que não demonstra nenhuma habilidade sobre-humana. Os irmãos crescem, pegam rumos diferentes, mas têm de se unir por dois motivos: o “pai” adotivo morre e o mundo está prestes a acabar.

Tecnicamente, a série é um espetáculo

Baseada na HQ homônima escrita por Gerard Way e ilustrada pelo brasileiro Gabriel Bá, a série começa surpreendentemente bem. Não que houvesse dúvidas acerca da qualidade do projeto, mas o nível do piloto é alto. Muitos episódios de estreia fracassam por não conseguirem apresentar trama e personagens de forma orgânica e envolvente. E é justamente nisso que o episódio inicial acerta. O roteiro entende que é preciso organizar todo o tabuleiro para, então, mostrar as peças.

Com isso, a apresentação dos protagonistas é clara, eficiente do ponto de vista narrativo e bela sob a ótica visual. Enquanto Vanya, a Número Sete, toca o clássico tema de O Fantasma da Ópera, os demais jovens surgem em seus universos particulares. Imagem e som casam de forma certeira em um dos grandes momentos da temporada.

O aspecto técnico da série, aliás, é um espetáculo. Com fotografia digna de cinema e uma direção de arte inventiva e rica em detalhes, a adaptação bebe na fonte original, trazendo inúmeros elementos direto das HQs. Para dar vida às criações ousadas de Way e Bá, os efeitos visuais são de cair o queixo. E o símio Pogo é, indubitavelmente, o mais incrível personagem criado inteiramente por CGI na televisão. Trata-se de um personagem inteiramente criado por computador, mas totalmente crível. Em um ano que já trouxe Project Blue Book e ainda conta com Game of Thrones, o Emmy de Efeitos Visuais promete ser acirrado.

Outro aspecto que vale a pena ser apontado é a trilha sonora. Esta é outra série que promete fazer sucesso entre o público graças às canções que embalam os capítulos. Tendo, certamente, investido uma grana alta em direitos de reprodução, a Netflix não poupou esforços para trazer grandes hits ao projeto. Assim, espere diversas playlists no Spotify, bem como textos e vídeos abordando a seleção musical do programa.

Entretanto, nem tudo são flores…

Apesar de uma estreia sólida, The Umbrella Academy esfria com o passar dos episódios. Permanece longe de ser ruim; pelo contrário: a temporada segue com passos firmes, construindo uma mitologia interessante e desenvolvendo apropriadamente seus personagens principais. O problema é que, com o passar dos capítulos, o roteiro vai se acomodando. As convenções de gênero se ajeitam, o frescor da novidade passa e as boas ideias do início são apenas esticadas ou reaproveitadas nos episódios seguintes.

Novamente, não é que a temporada fique ruim; ela apenas perde um pouco do brilho. E aqui entra, novamente, um problema dos programas da Netflix: histórias são esticadas até quase quebrarem em excesso de episódios. Os produtores e roteiristas precisam entendem que a TV mudou ainda mais do que eles acham que realmente mudou. Hoje, não é preciso lançar dez ou treze capítulos, pois sete ou oito podem fazer o trabalho perfeitamente. Além disso, a barreira entre episódios de meia-hora e uma hora está se partindo: está cada vez mais comum comédias investirem em capítulos maiores, enquanto os dramas abraçam um formato menor e mais direto. Por isso, The Umbrella Academy talvez se beneficiasse enormemente se tivesse episódios de apenas 30 minutos (no máximo 40).

Adaptação versus HQ

Outro problema é o distanciamento da HQ original. Os motivos para isso são diversos. A histórias de Gerard Way e Gabriel Bá são épicas, em uma escala absurdamente grande. É possível que a série tenha pisado no freio, diminuindo o escopo da história. A razão é compreensível, mas não deixa de decepcionar. A HQ joga alto, com cenas grandes, enquanto a adaptação prefere manter os pés no chão.

Neste sentido, em alguns aspectos o programa da Netflix é extremamente fiel e zeloso com relação ao material original. Em outros, parece querer fugir ao máximo das páginas dos quadrinhos. Para completar, a HQ tem um ritmo próprio, trazendo revelações e informações importantes logo nas páginas iniciais, enquanto a série guarda algumas surpresas para o final. Caso você queira conhecer a obra original, portanto, esteja avisado: a leitura pode entregar vários spoilers acerca dos mistérios de Umbrella. 

Enfim…

No fim, resta um pouco mais de ousadia e um pouco menos de episódios para Umbrella Academy realmente quebrar paradigmas. De início, parece realmente que o programa veio com o pé na porta, prometendo sacudir o gênero no qual está inserido. Com o passar do tempo, contudo, parece se conter com o básico. Felizmente o básico é bom e diverte. Ainda assim, fica o gostinho de quero mais e a certeza de que tudo poderia ser ainda melhor do que foi.

Leia também: O elenco de Umbrella Academy – saiba quem são os atores e personagens

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.