Crítica: Boneca Russa mistura bom humor e esperteza em mais um acerto da Netflix

Imagem: Netflix/Divulgação

Boneca Russa recicla uma premissa batida com bom humor e novas ideias

Subgêneros nascem a partir da quantidade de produtos lançados que, através de um elemento em particular, pertencem ao mesmo grupo. Por exemplo: com o tempo, tantos filmes sobre invasão domiciliar foram feitos que, hoje, temos basicamente um subgênero de filmes sobre invasões. O mesmo parece estar acontecendo com histórias de pessoas que se encontram presas a um dia ou momento, tendo que revivê-los inúmeras vezes. De Feitiço do Tempo A Morte lhe dá Parabéns, são tantos os filmes, livros e séries que abordam a ideia que o subgênero já possui seus próprios clichês e regras bem estabelecidas. Boneca Russa, nova série da Netflix, investe na mesma temática, mas com abordagem própria, o que já lhe garante atenção e respeito.

Na trama, Nadia (Natasha Lyonne, de Orange is the New Black) está em sua festa de aniversário. Ela fuma maconha, bebe álcool, transa com um convidado, sai pela rua, avista sua gata que havia sumido, atravessa a rua e é atropelada. Nadia morre. Nadia abre os olhos e está novamente no banheiro do apartamento onde ocorre sua festa. Logo ela morre novamente. E acorda no banheiro. E morre. Nadia então decide descobrir o que está acontecendo e como parar o fenômeno.

Série sempre encontra um novo jeito de surpreender

O primeiro grande acerto de Boneca Russa é evitar o clichê. Isso se aplica a mostrar a personagem revivendo os mesmos detalhes infinitas vezes. Feitiço do Tempo, por exemplo, trazia Bill Murray esbarrando no mesmo sujeito incontáveis vezes, mergulhando o pé numa poça e reencenando a gravação do Festival da Marmota. Em Boneca Russa quase não vemos Nadia revivendo exatamente a mesma coisa. Isso porque ela aceita sua nova condição rapidamente e decide fazer tudo diferente. A decisão das roteiristas é acertada, por confere ritmo à narrativa e ao visual da série. Por mais que ela viva o mesmo dia/noite de novo e de novo, sempre acompanhamos coisas diferentes.

Além disso, Boneca Russa nunca soa didática. E por mais que a personagem queira descobrir o que acontece, as respostas concretas quase nunca vêm. O que vale são as relações engraçadas e turbulentas entre os personagens e os ricos detalhes que a série insere aqui e ali. Neste sentido, embora abrace uma ideia que já deixou de ser original há muito tempo, Russian Doll se desdobra para entregar uma história novinha. Além disso, com desdobramentos frescos e interessantes.

Muito do sucesso se deve ao carisma inquestionável de Natasha Lyonne. Ainda que muitas vezes a impressão é de que a atriz interpreta a mesma personagem de Orange, a persona de Lyonne é forte. Isso faz valer cada segundo da série. A voz rouca joga diálogos rápidos e afiados, e o domínio do texto e da personagem é tanto que o humor brota naturalmente. Se a semelhança entre Nadia e a detenta de Orange lhe incomodar, apenas imagine que Boneca Russa é um spinoff de OITNB.

Curta e bem amarrada: ideal para uma maratona

Com oito episódios de 25 minutos cada, Boneca Russa merece ser assistida em uma ou duas parcelas. É o tipo de programa que merece uma maratona. Primeiro porque o texto flui e os ganchos são ótimos. Segundo porque a série se beneficia consideravelmente ao ser assistida sem grandes interrupções. Com quatro horas de duração no total, Russian Doll é como um filme, e funciona muito bem se analisada desta forma. É por volta do terceiro capítulo que a história engrena de vez. Ali, tudo começa a soar como um projeto sólido. Por isso, por mais que o piloto não funcione inteiramente, é ideal que você dê mais uma chance ao desenrolar da trama.

Com a própria Lyonne e Amy Poehler na produção e nos roteiros, Russian Doll tem tudo para arrebatar o público. Certamente, poderá ser mais um sucesso da plataforma. Capaz de fazer rir, pensar e emocionar, Boneca Russa, como o nome sugere, é um pequeno e lindo produto. E aos poucos vai se revelando e surpreendendo pelas várias camadas que guarda. É o motivo pelo qual subgêneros sobrevivem: de tempos em tempos alguém surge e renova os conceitos, entregando um projeto totalmente imperdível.

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.