Final de Game of Thrones também dará fim a comportamento de assistir séries pela TV

Como Game of Thrones marcará mudança de hábito no consumo de séries

Segunda feira virou o dia internacional para debate em rodas de amigos sobre o que aconteceu na noite anterior em Game of Thrones. Há oito anos, o drama da HBO vem incentivando, com seus episódios épicos, o consumo do espectador através da televisão. Hábito que hoje, em 2019, encontra-se completamente defasado.

Com o final da série marcado para este domingo, 19, às 22h, GOT encerrará sua trajetória marcando também o fim da prática de consumo de séries através da TV. Vinda de uma geração em que a internet e os serviços de streaming ainda não predominavam, a atração certamente é o último elo vivo com uma geração que achava normal administrar seus afazeres com o horário em que a TV decide exibir seu conteúdo. E isso, sem dúvidas, será uma grande mudança de paradigma.

O que chama atenção?

No centro do universo de Game of Thrones estão duas questões: a primeira, como uma estranha obra de ficção – que apresenta, entre outros exóticos, dragões, guerreiros eunucos e mortos-vivos – passou a ter tal poder sobre nossa cultura? E dois, como tudo isso vai acabar?

Adaptado para TV por D. Benioff e D. B. Weiss, baseado em uma série inacabada de romances do escritor de fantasia americano George R. R. Martin, o programa esgotou seu material de origem em 2016. Desde então, Benioff e Weiss têm seguido um modelo fornecido exclusivamente pelo romancista, de modo que até mesmo os fãs mais fervorosos ainda não sabem onde a narrativa está indo.

Baseando-se em J. R. R. Tolkien e nas Guerras das Rosas do século 15, entre outras referências históricas e ficcionais, GOT evoca um mundo pré-burocrático, no qual a política opera primariamente através de subterfúgios e força. Uma fórmula que só assumiu maior ressonância em nosso novo mundo, numa era de fortes homens políticos. Um drama de personalidades – do tirano Ramsay Bolton, que alimenta seus cachorros com seus inimigos, ao cerebral Tyrion Lannister, o estrategista anão por trás de grande parte da estratégia do espetáculo. Todos eles, de alguma forma, praticam um exercício lento – mas muitas vezes satisfatório em manobras políticas. E isso, sem dúvidas, é um grande chamariz para a série.

Contexto político ajudou no engajamento de Game of Thrones. Imagem: HBO/Divulgação

Final engajado

Dessa forma, podemos entender que GOT trata de assuntos que, de alguma forma, se conectam com o imaginário do público. Chamam a atenção, com aspectos que podem ser refletidos de algum modo para a história da humanidade. E à medida que chegamos ao final, nos encaminhando para um daqueles eventos que acontecem uma vez por ano.  Também, nos quais é quase indecoroso não ter interesse ou participar.

GOT começou com uma audiência tímida. Seu primeiro ano teve uma média de 2.2 milhões de espectadores. Porém, sua mais recente season finale chegou a marcar 12.2 milhões. Na última temporada, já conseguiu engajar 18 milhões. Para o final, além disso, espera-se mais de 20 milhões de espectadores.

Desde que estreitou seu foco, simplificando sua política e a luta do bem contra o mal, GOT cresceu. E, ainda, desde que a HBO passou a investir mais na série, seu público também fora aumentando. Em certo ponto, tornou-se menos história e mais mística. E na última temporada, voltou a sua base política de origem. Tudo isso, para destacar a trama que realmente fisgou o público, a ponto de levá-los a administrar suas vidas em torno do horário que a HBO exibe cada episódio de Game of Thrones.

Mudança de hábito

O especialista em economia comportamental, Anderson Mattozinhos, destacou em recente comentário em seu site Geekonomics, que o formato em que Game of Thrones é produzida já não condiz mais com a realidade do público que se engaja em ser fã de uma série de TV.

Por conta dos streamings, como a Netflix, e da grande disponibilidade de material, hoje é extremamente difícil uma série como GOT dar certo, justamente pela grande probabilidade da perda do “envolvimento emocional” com o seriado. Bem como, a impaciência do espectador em ter de esperar uma semana para ver cada episódio.

O economista, além disso, também usou o termo “falácia do custo irrecuperável” para explicar o porquê de GOT conseguir reunir, até hoje, muitas pessoas na frente da TV. A

Resumidamente a Falácia do custo afundado ocorre quando investimos muito recurso, seja de tempo, financeiro, atencional ou emocional em algo e por isso ficamos apegados, presos e pouco propensos a renunciar àquilo em que investimos tanto.

Há ainda forte desejo em mantermos nossa reputação. Essa afirmação vem da psicologia social e está associada ao compromisso implícito que temos socialmente firmado com o seriado. Nos relacionamos com pessoas que assistem, fazemos comentários e mantemos relacionamentos onde o assunto Game of Thrones é tratado regularmente”, disse o economista.

Além disso, completo. Todavia, palavras. 

Em suma, o público entende que houve uma “devoção” de tempo muito grande – oito anos – para este produto, a ponto de ser o suficiente para colocá-lo em um tipo de prática que hoje já não é mais habitual. É como se nossa mente nos pressionasse a assistir o conteúdo, uma vez que ele se tornou um objeto social do espectador. Assim, para chegar na roda de amigos na segunda feira, e comentar sobre o episódio de GOT, ele necessariamente precisa assistir o episódio já no domingo, durante a exibição oficial.

Mas afinal, por que esse tipo de hábito corre o risco de acabar? Porque as pessoas não estão mais interessadas em largar tudo o que estão fazendo para assistir, no horário da televisão, um episódio de série?

Por que isso vai acabar?

Basicamente, a ampliação dos formatos de como a série é entregue para o público moldou uma nova geração de fãs. Assim, um grupo pode assistir a um mesmo conteúdo, mas como práticas diferentes. E isso, resultará certamente em um impacto bem individual que a série causa no espectador.

Um exemplo: um conteúdo original de uma plataforma, lançado em uma sexta-feira, pode ser consumido por um espectador no seu final de semana. Outro, poderá consumi-lo na segunda, no caminho para o trabalho. E outro poderá descobri-lo somente daqui um mês. Os três consumirão o mesmo produto, poderão alcançar um público igual ou até maior que o de Game of Thrones, mas certamente não terá força suficiente para que o público pare o que está fazendo e maratona a série assim que ela estreia.

A forma conhecida de binge watching, que proporciona as maratonas de séries, é o mais consumido hoje pelo fã de séries, justamente pela facilidade que esse conteúdo é encontrado – e de uma só vez – nas plataformas de streaming. Assim, ele não permite que a série seja exibida na TV, semanalmente, como GOT. Logo, dificilmente haverá alguma outra série ou produção que consiga reunir mundialmente o público de forma semanal para assistir, em tempos dessa nova era tecnológica.

GOT tem tudo para ser uma das últimas séries a não se render ao “Binge Watching”. Imagem: MacWorld/Release.

Fim de uma era

Dessa forma, Game of Thrones reafirma ainda mais a sua importância para a TV. Sendo uma das últimas produção vindas de um tempo diferente do atual, ela foi importante para modular um comportamento social que se perdeu diante da prática de assistir séries pela Smart TV ou internet.

Sendo assim, a influência social causada por ela não deverá se repetir, justamente porque não daremos mais oportunidade para que isso aconteça. Portanto, teremos de levar nossos olhos para um passo adiante, e aceitar que o comportamento social também deverá mudar, como reflexo da mudança em assistir séries de TV.

Se isso será bom? Não sabemos. Mas certamente não irá proporcionar a mesma rodinha de conversa que o público de GOT possui nas segundas. Bem como é, literalmente, o fim de uma era.

Leia também: Relembre como Game of Thrones marcou a história da TV

 

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Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.