Chefão de grande canal dos EUA é acusado de assédio por seis mulheres

Leslie Moonves, CBS,
Leslie Moonves, CBS,

Imagem: Evan Agostini / Associated Press/Divulgação

Mais um dia, mais um homem poderoso sendo acusado

Desde o início do movimento #MeToo (“eu também”) sobre assédio sexual, Harvey Weistein foi o homem mais poderoso a ser exposto e derrubado a partir de relatos de mais de cem (!) mulheres sobre a conduta do produtor através dos anos. Mas isso pode mudar a partir desta sexta-feira (27).

De acordo com o The New Yorker, Leslie Moonves, um dos homens mais poderosos de Hollywood e presidente da CBS Corp., assediou seis mulheres no decorrer da sua carreira na indústria. Assim como em outros casos, ele supostamente usava seu cargo para tirar vantagem de mulheres que queriam uma chance de mostrar seu trabalho. Quando recusavam, elas encontravam dificuldade em conseguir, sequer, um agente para representa-las no futuro.

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A reportagem ainda afirma que o comportamento não é apenas de Moonves. O jornalista responsável pela investigação de oito meses, traz casos que sugerem que o problema da CBS Corporation é endêmico. Acusa-se também o ex-chefe da CBS News de encobrir diversos casos de má conduta. Além do departamento pessoal que teria “demorado” para agir nos casos de Charlie Rose e de Brad Kern.

Acusacão

Um dos casos mais notáveis da reportagem envolve Illeana Douglas (da série Six Feet Under). A atriz afirma que foi apresentada ao executivo em 1996, que à época comandava a CBS Entertainment, onde concordou em assinar um contrato com a empresa na qual desenvolveria projetos que poderiam ser produzidos no futuro. Embora suas ideias não tenham seguido em frente, foi escalada num piloto de comédia, Queens.

Supostamente preocupado com seu desempenho durante a leitura do roteiro, Les pediu para conversar com a atriz no seu escritório. Durante o diálogo, ela afirma que ele simplesmente interrompeu-a e questionou se estava solteira. Constrangida, a atriz afirma que tentou falar sobre seu trabalho, mas foi novamente cortada desta vez por ele tocando-a de forma inapropriada, seguindo por uma tentativa forçada de beijo. “Você começa a pensar, ‘Por mais quanto tempo isso vai durar?’, eu não conseguia tirar ele de cima de mim,” relembra.

No caso de Janet Jones, a roteiristas afirma que quando tentou fugir do assédio deparou-se com a porta do escritório trancada. “Se você não abrir essa porta,” recorda do momento que encarou o executivo. “Eu vou gritar tão alto e por tanto tempo que todos vão vir aqui,” diz. A profissional afirma que lembra de Moonves dando uma volta na sua mesa e apertar um botão embaixo da mesa para abrir a porta.

Uma nota, por favor.

Para a revista, o executivo emitiu a seguinte resposta – “Durante meu período na CBS, eu promovi uma cultura de respeito e oportunidade para todos os empregados, e frequentemente foi bem sucedido ao promover mulheres em posições de poder através da nossa empresa. Eu reconheço que em alguns momentos há anos atrás quando eu talvez tenha deixado algumas mulheres desconfortáveis por fazer avanços. Aqueles foram erros nos quais eu me arrependo imensamente. Mas eu sempre entendi e respeitei por princípio – que “não” é “não”, e nunca usei minha posição para prejudicar a carreira de ninguém. Esse é o momento na qual todos temos que focar em como ajudar a melhorar nossas sociedade, e nós na CBS estamos comprometidos em ser parte da solução.”

A esposa do executivo, Julie Chen, que apresenta o Big Brother e o talk show vespertino The Talk, ambos da CBS, também e manifestou. “Eu conheço meu marido, Leslie Mooves, desde o final dos anos de 1990, e eu estive casada com ele por quase 14 anos. Leslie é um bom homem e pai amoroso, marido devoto e líder corporativo inspirador. Ele sempre foi um ser humano carinhoso e decente. Eu apoio ele por completo e apoio sua última nota“.

Antes mesmo da divulgação da matéria da The New Yorker, uma exclusiva do The Hollywood Porter afirmava que ainda nesta sexta-feira (27), seria publicada uma matéria elaborando diversas denúncias de má conduta contra Leslies. Tal crise fez com que a empresa emitisse uma nota. “Todas as alegações são levadas a sério. O conselho de diretores independentes da CBS se compromete em investigar as acusações que violam as políticas da companhia,” diz.

Alguém disse problemas?

Mesmo que a reportagem traga uma nova complicação para a empresa, ela já estava com uma boa quantidade de problemas. Com o grande número de vendas e aquisições no campo de mídia (AT&T-Time Warner; Fox-Disney), analistas e investidores questionam os planos da CBS Corp. para o futuro. O investimento na CBS All Access – plataforma de streaming do canal – será suficiente para competir com Apple, Netflix e Amazon? E o canal CBS, casa de séries como NCIS e Hawaii Five-0, será lucrativa até quando?

Sem contar com o gigantesco drama corporativo que vem se desenvolvendo nos bastidores há meses. Isso porque a CBS Corp. pertence a National Amusements, empresa hoje controlada por Shari Redstone, após o afastamento do seu pai, Sumner Redstone, do controle em 2017. No início deste ano, Shari sinalizou que queria fundir a CBS Corp. com a Viacom (MTV, VH1….), após serem separadas por Sumner em 2005.

Leslie não gostou da ideia. A CBS Corp. (CBS, 50% da CW, Showtime…) é mais rentável, melhor organizada e possui uma melhor perspectiva de futuro do que a Viacom. Situação bastante diferente de quando elas foram separadas há 13 anos. Shari forçou um voto para aprovação da fusão, mas o conselho da CBS Corp. rejeitou a proposta ao manter Leslie no comando e reiterando seu apoio ao executivo. Com o entrave, ambas as partes tentarão reconciliar numa audiência em Delaware no início de outubro.

Nada de golpe

Assim que as primeiras notícias começaram a sair sobre as acusações contra Leslie, logo pensou-se que Shari estaria por trás do escândalo. Afinal ela supostamente pagou enfermeiras para testemunhar sobre a incapacidade do pai em continuar administrando seu império em 2017. Além do mais, derrubar Moonves neste momento deixaria o caminho muito mais tranquilo para que seus planos para CBS dessem certo uma vez que, mesmo que a CBS Corp. eleja outro presidente rapidamente, ele não terá a mesma influência do executivo.

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De acordo com seu porta voz, Shari Redstone não tem qualquer responsabilidade na reportagem. “A insinuação maliciosa de que a Sra. Redstone está por trás de alguma forma das alegações de má conduta do Sr. Moonves são falsas e egoístas. A Sra. Redstone espera que a investigação desses alegações sejam minuciosas, abertas e transparentes,” disse a nota à imprensa.

Leia mais: Estrela de House of Cards fala pela primeira vez sobre escândalo de Kevin Spacey

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Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.

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